sábado, 1 de fevereiro de 2014

MC: "Gostava de ter um filho na Alemanha, abrir uma empresa de informática e experimentar todas as cervejas do mundo"

Em 2014, muitos dos Nanikos chegam aos 30 anos de idade. Para celebrar  um marco tão significativo na vida de todos os que têm engrandecido este clube, o Jornal O Naniko inicia hoje uma série de entrevistas com cada um deles. Nos depoimentos recolhidos, contam-se muitas das histórias que fizeram a História de três décadas de existência. São relatos por vezes hilariantes e por vezes comoventes, mas que, na sua essência, deixam transparecer o lado mais humano dos entrevistados. Não se trata, no entanto, de um exercício jornalístico meramente virado para o passado — também se tentou vislumbrar o futuro à luz das expectativas, angústias e sonhos que trazem na bagagem do amanhã, a qual, como se sabe, é sempre condicionada pelas circunstâncias efémeras do presente. Em suma, estes trabalhos são fotografias que tentaram captar sentimentos, recordações e desejos que, quando chegarem até si, já serão necessariamente diferentes. Apesar de tudo, é preciso ser optimista — talvez tenham a força suficiente para sobreviver à erosão do tempo e, quiçá, figurar na biblioteca pessoal do leitor ou, se não for pedir muito, no canto reservado às suas memórias mais queridas.

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Quem entra no número 2 da Suffolk Street é de imediato sugado pelo remoinho de vozes, o tilintar de talheres, as cores das bandeiras no tecto e, claro, pelo choque boémio de vastas canecas de cerveja que entornam a espuma no soalho enegrecido. Poucos segundos bastaram para que também ficasse contagiado pela bonomia festiva que reina no O’Neill’s, típico pub irlandês, localizado no coração histórico de Dublin. O ambiente quente e acolhedor fez-me esquecer, quase instantaneamente, a noite gelada que está do lado de lá da porta e, sobretudo, a chuva esfarelada que cai numa monotonia irritante sobre a cidade.

Avanço em passo rápido por entre a clientela heterodoxa do pub. Por aqui há estilos e modas para todos os gostos: desde a calça de ganga, a minissaia, o top e o ténis branco até ao aprumo da gravata, da camisa engomada, do sapato italiano e do cabelo estilizadamente despenteado. Apesar de serem uma minoria, vêem-se também alguns casais acima dos 60 anos. Bebem com religião a sua pint de final de semana, enquanto espreitam, sem grande interesse, para o programa de antevisão da 24ª jornada da Premier League inglesa, que passa num dos ecrãs gigantes.


Encontro por fim o MC e a sua namorada, a A. F., numa mesa mais recatada, ao fundo do corredor. Levantam-se assim que me vêem, cumprimentam-me e perguntam-me se foi fácil dar com o caminho. Felizmente não há muito que enganar, porque o pub fica mesmo em frente à igreja de St Andrew, cuja torre é visível a vários quilómetros de distância.

Sem perder tempo, cedemos de bom grado às exigências do estômago e pedimos como entrada umas deliciosas Ostras Kilpatrick, acompanhada por uma Guinness de espuma muito suave. Acto contínuo, atirei-me a um pernil de cordeiro irlandês lentamente assado, cuja carne tenra e suculenta se desfazia na boca como algodão doce. O MC optou pelo bife irlandês ensopado em Guinness e a A. F. aventurou-se num generoso naco de peru irlandês assado, com mel e presunto cozido envolto em mostarda. Ficámos, evidentemente, cheios, empanturrados, à beira da apoplexia. Não fosse a salvífica cerveja e ainda hoje a nossa digestão estaria por fazer: o MC e eu bebemos 10 canecas de meio litro, sempre de estilos diferentes, o que nos deixou galvanizados para o resto da noite. A A. F. é que não ficou muito satisfeita, porque a partir da terceira dizia repetidamente, em tom de censura, “MC já chega, não bebas mais…” Escusado será dizer que não lhe deu ouvidos, como rapaz ajuizado que é.

Bem comido e bem bebido, iniciei então a entrevista ao MC, que passou pelos momentos mais importantes e marcantes da sua existência, pelos sonhos que tem por cumprir e pela vida que leva actualmente em Dublin. Trata-se de um depoimento genuíno e profundo de alguém que tem sabido extrair o sumo essencial de cada ano que viveu. Em suma, o leitor está na presença de um documento histórico que deve guardar na estante e reler sempre que possível.

Jornal O Naniko: Por que razão escolheu este local para a entrevista?

MC: Então depois de comer o que comeu ainda faz essa pergunta? Escolhi evidentemente por causa da qualidade da comida e da bebida e também porque aqui passam os jogos da NFL [National Football League]. Ainda há coisa de três semanas estive aqui a assistir à final da Conferência Americana. Os Broncos venceram os New England Patriots por 26-16. Os Broncos têm o melhor ataque da prova e sobretudo têm o Peyton Manning. O gajo é incrível – aos 37 anos ainda é um dos melhores quarterbacks da NFL. Nesse jogo lançou para 400 jardas e dois touchdowns. Agora no SuperBowl vão jogar contra os Seattle Seahawks, que têm a melhor defesa da NFL. Vai ser das finais mais equilibradas de sempre. Como é óbvio vou estar aqui no dia 2 de Fevereiro a assistir ao jogo. Além disso, o Derrick Coleman, que é surdo desde os três anos, vai estar na final. É por estas histórias e pela maneira como é organizado que eu adoro este desporto. Não há cá simulações ou perdas de tempo como no futebol. Aquilo é para homens de barba rija. Basta ver a quantidade de lesões que há por ano: ombros deslocados, braços partidos, lesões graves na cabeça… Além disso, é um jogo extremamente táctico, ou seja, ganha quase sempre a melhor equipa. Não há cá bolas na trave ou foras-de-jogo mal tirados.

Jornal O Naniko: De onde surgiu essa paixão pelo futebol americano?

MC: Da minha estadia nos Estados Unidos. Quando estive lá a trabalhar comecei a assistir aos jogos e interessei-me. Antes disso nem sequer conhecia as regras.

Jornal O Naniko: Pelo que percebo, integrou-se com facilidade na Irlanda…

MC: Sim, não posso dizer que tenha sido complicado. Uma das coisas que tem ajudado muito é a simpatia das pessoas e também a descontracção com que vivem o dia-a-dia, sem grandes preocupações em relação ao futuro, um pouco à semelhança dos portugueses. Aliás, acho a Irlanda muito semelhante a Portugal, quer nos aspectos positivos quer nos negativos. Ainda no outro dia, quando ia no avião de regresso após as férias de Natal em Portugal, meti conversa com um irlandês e ele disse-me que os portugueses e os irlandeses eram muito semelhantes na maneira de estar. Quando ele visitou as aldeias portuguesas viu os velhotes nas tascas a beber copos de vinho tinto e percebeu que o cenário era praticamente igual ao da Irlanda rural. Apenas na bebida é que se descobrem diferenças: aqui bebem sobretudo cerveja e frequentam pubs. Tal como em Portugal, aqui também se vê muita selvajaria no trânsito e fazem-se coisas em cima do joelho. É igual ao desenrascanço português. Ou seja, em vez de fazerem as coisas bem logo à primeira para durarem mais tempo, faz-se de qualquer maneira e amanhã logo se vê.

Jornal O Naniko: Já conhece bem o país?

MC: Sim, tenho aproveitado para viajar, sobretudo ao fim-de-semana. Já fui a Cork, Galway, Belfast, na Irlanda do Norte… São cidades simpáticas. Também tenho aproveitado para conhecer a história do país. É um verdadeiro emaranhado de dinastias, guerras, conflitos… A história portuguesa é muito mais linear – teve três dinastias, quatro vá, se contarmos com a dos Filipes, depois seguiu-se a primeira República, depois a ditadura e depois o regime democrático actual. Aqui não: houve várias guerras de sucessão ao trono, várias potências europeias andaram por aqui, como os espanhóis… É bastante interessante.

Jornal O Naniko: Foi fácil tomar a decisão de largar Portugal e vir para aqui?

MC: Sim, difícil era ficar lá. O que é que estava a fazer em Portugal? Arranjei um trabalho em que não conseguiram cumprir com o que me tinham prometido em termos salariais, por isso percebi que tinha de sair. Aconselho todos a fazer o mesmo: em vez de andarem a perder tempo em manifestações e em reivindicações que não mudam nada, mais vale apostarem na formação e depois tentarem a sorte no estrangeiro. Eu respeito as pessoas que se manifestam, mas há coisas que vão demorar gerações a mudar e a verdade é que só se vive uma vez. Entre tentar ser bem sucedido profissionalmente ou viver permanentemente revoltado e triste com a situação do país, eu escolho a primeira opção.

Jornal O Naniko: Recomenda também os portugueses a emigrar?

MC: (risos) Não, quem tem trabalho e está bem deve ficar. Eu também teria ficado por lá se me oferecessem condições para isso. Mas assim que percebi que progressão na carreira e salários competitivos são verdadeiras abstracções em quase todas as empresas, peguei na mala e fiz-me à estrada. E ainda bem que o fiz. Neste momento estou numa empresa em que aprendo todos os dias, em que estou em permanente evolução e em que se valoriza a formação e o investimento em novos conhecimentos. Onde é que se tem isso em Portugal?

Jornal O Naniko: Algumas pessoas confessaram que ficaram surpreendidas com a rapidez com que saiu do emprego em Portugal e arranjou logo outro na Irlanda.

MC: Não podemos estar parados, não é? A partir do momento em que deixei o trabalho, comecei de imediato a estudar as hipóteses de vir para a Irlanda. Em poucas semanas já tinha identificado as principais empresas em Dublin, já sabia qual era o custo de vida do país, quanto custava alugar uma casa… Depois, foi só escolher a empresa que me oferecia melhores condições.

Jornal O Naniko: A verdade é que o MC já teve uma experiência no estrangeiro. O que é que correu mal nos Estados Unidos para ter regressado a Portugal?

MC: O trabalho que fazia lá não era muito estimulante. Era demasiado rotineiro, passava os dias a fazer a mesma coisa e em pouco tempo senti-me completamente desmotivado. Além disso, trabalhava com bastantes indianos no meu departamento. Como pode imaginar, todos os dias havia um cheiro insuportável a chamuça e a caril que não se podia. Aquilo entranhava-se de tal forma na roupa e na pele de uma pessoa… Só para ter uma ideia, em minha casa, quando faltava óleo, os meus amigos pegavam-me nas pernas e nos braços e torciam-me. Em cinco minutos conseguiam encher dois alguidares de óleo, o qual muitas das vezes tinha uma qualidade superior ao óleo fula. A determinada altura abastecia três roulottes de hambúrgueres, o que me dava um dinheiro extra. O pior foi quando fui fazer análises e descobri que o meu colesterol estava a bater ferros. Nessa altura percebi que a minha saúde estava em primeiro lugar, apesar das batatas fritas deliciosas que fritávamos com o óleo extraído do meu corpo. Por isso, fui para Portugal. Desde então nunca mais consegui comer uma chamuça nem ver um filme indiano. Sempre que o tento fazer, começo logo a suar caril e a praticar yoga.

Jornal O Naniko: O que é que guarda da experiência nos Estados Unidos?

MC: Guardo a organização, algumas festas e sítios engraçados que visitei, como o Big Sur. A sociedade americana trabalha bastante, consome bastante e gosta de arriscar em novas ideias, novos negócios. Não tem comparação com Portugal. Além disso, os americanos são bastante abertos, metem conversa com facilidade e são bastante transparentes no que dizem e no que fazem. Ainda é a terra das oportunidades para muita gente. Há muitos asiáticos que na sua terra não teriam onde cair mortos e que nos Estados Unidos conseguem montar um negócio e ter uma vida minimamente confortável.




Jornal O Naniko: Essa foi uma das primeiras experiências profissionais após a conclusão do curso de informática. Como é que foi a sua vida de universitário em Lisboa?

MC: (fica pensativo) Não tenho grandes recordações da universidade… Nos primeiros anos não foi fácil. Senti-me desadaptado e sozinho em Lisboa. Vinha do Fundão e caí de pára-quedas em Paço de Arcos, que ficava a vários quilómetros da universidade. Não foi fácil. Muitas das vezes passava os dias em casa a ver vários filmes seguidos. Foi assim que conheci a filmografia quase completa do Nicholas Ray, do Willian Friedkin ou do John Carpenter, um dos grandes mestres do terror. Uma das melhores decisões que tomei foi sair do Técnico. Lá era mais fácil ver um elefante verde com asas do que dois bons pares de mamas seguidos. Mas isso também seria dar pérolas a porcos, porque o pessoal do Técnico excita-se mais a snifar linhas de java e a alucinar com trips de Wireless Wide Área Networks dissolvidos em html do que com alguém do sexo feminino. No entanto, fiz algumas amizades e fui a algumas recepções do caloiro engraçadas. Mas a minha vida universitária não foi nada do outro mundo.

Jornal O Naniko: Percebeu cedo que queria seguir a área de informática?

MC: Sim, a partir dos meus 13, 14 anos comecei a interessar-me por computadores. Desde cedo percebi que era uma área com futuro, em que iria conseguir trabalho sem grandes dificuldades.

Jornal O Naniko: Uma pessoa com quem falei antes desta entrevista disse-me que, se não fossem os seus pais, provavelmente teria ido para Coimbra e hoje em dia andaria a escrever poemas pelas ruas e a beber absinto. É verdade?

MC: (franze a testa) Vê-se mesmo que esteve a falar com o Ucrânia. Esse gajo… Lá está, trata-se de um gajo de letras que, como não tem nada na cabeça, tem de encher o espaço vazio com coisas que às vezes me saem. De vez em quando atira-me isso à cara, recorda-me que uma vez disse que queria escrever poemas nas ruas… Que importância é que isso tem? Quando somos mais novos queremos ser pintores, futebolistas, astronautas… Sim, é provável que sem a influência dos meus pais talvez estivesse agora por Coimbra a conviver com farrapos, ou talvez não, porque crescemos e ficamos mais maduros… Mas olhe, da próxima vez que estiver com o Ucrânia pergunte-lhe antes se sabe resolver uma equação de segundo grau, porque, como é de letras, duvido que saiba. Ou melhor, pergunte-lhe se já sabe contornar as placas triangulares pelo lado certo. Uma vez, numa viagem pelas aldeias do xisto, cometi a loucura de lhe passar o carro para as mãos e passado cinco minutos ia chocando de frente com outro carro por ter contornado a placa triangular pelo lado contrário. Que farrapo… Outra vez, num café alguém disse ‘chama aí o Índio’ e vai ele e diz ‘é melhor não, porque o gajo ainda atira uma seta!’ Uma seta! Quem é que se lembra disto? Só um gajo de letras que não tem mais nada em que pensar! (ri-se descontroladamente durante cinco minutos)

A.F.: (encolhe os ombros e revira os olhos)

Jornal O Naniko: Já está mais calmo? Muito bem… O MC nasceu e viveu toda a sua infância e grande parte da adolescência no Fundão. Mantém uma ligação forte à cidade?

MC: Cada vez menos… Vou lá raramente por falta de tempo e porque faz cada vez menos sentido ir lá. Não tenho lá família, a maior parte dos amigos também não está lá, portanto… o que é que lá vou fazer? Fazer compras à Acrópole?

Jornal O Naniko: Não tem saudades?

MC: Às vezes tenho algumas, mas não sou pessoa de grandes nostalgias, nem de estar sempre a recordar o que passou. Além disso, o Fundão está cada vez mais distante, faz parte de um passado cada vez mais passado. E ainda bem que assim é, porque prova que continuei com a minha vida, que tenho um presente estimulante, desafiante. É mau quando vivemos sempre atrelados a um passado, seja ele bom ou mau.

Jornal O Naniko: Como é que foi a sua infância no Fundão?

MC: Foi boa. Lembro-me de jogar playmobil com o meu primo, de ir à neve na Serra da Estrela, de jogar às escondidas na escola primária… Depois, com o aparecimento dos computadores, lembro-me de passar horas a jogar Pacman e um jogo de volley de praia. A determinada altura comecei a ir para o bairro de Santa Isabel, que não ficava muito longe de casa. Ia mandar bujardas aos portões com o Ucrânia. Era o dia todo naquilo: 'Bum! Bum!' Os vizinhos ficavam desesperados! A determinada altura começaram a aparecer os miúdos que moravam ali para jogarem connosco. Havia o Jeto, que era japonês. O pai dele tinha um café no bairro… Chamávamos-lhe o vesgo, porque ele era capaz de confundir um Magnum de Amêndoas com um Mini Milk. (risos)

Jornal O Naniko: (risos)

MC: É verdade! Ele começava a apontar ao calhas para o cartaz dos gelados e perguntava sucessivamente: 'É este? É este? É este?' Havia também o André, que era guarda-redes como o Jeto. A avó costumava andar atrás dele com a mangueira e era bruxa. Uma vez perguntámos-lhe quantos anos é que ela tinha e ele descoseu-se e disse que tinha seiscentos anos. (risos)

A.F.: (encolhe os ombros e revira os olhos)

MC: Havia também o Super Pila, talvez o pior jogador que conheci, o Anton Diogster, avançado austríaco, o Flipe que era também conhecido por Hagi da Gardunha, devido à sua qualidade técnica. Ele era também filósofo, costumava praticar o método da douta ignorância, porque sempre que lhe perguntávamos alguma coisa, respondia: ‘Eu não sei nada.’ Até que um dia eu e o Ucrânia lhe perguntámos por que é que havia pretos. E ele deu a melhor resposta de sempre: ‘Porque tu és broche!’ (risos)

A.F.: (encolhe os ombros e revira os olhos) Qual é a piada disso?

MC: Há coisas que nunca irás perceber…Havia também os Telettubies que moravam todos num só prédio. Enfim, éramos um grupo engraçado.



Jornal O Naniko: Quem eram os seus ídolos do futebol naquela altura? Talvez o Figo, o Zidane…

MC: Não, nada disso. Os meus ídolos eram o Brian Deane e o King.

Jornal O Naniko: O Brian Deane e o King? Mas porquê?

MC: Em primeiro lugar porque tinha bastantes semelhanças físicas com o Brian Deane – com 13 anos já era bastante alto e forte. Tal como o avançado inglês, conseguia impor-me facilmente dentro da grande área contra centrais duríssimos que, na maioria das vezes, eram miúdos com metade do meu tamanho. Por isso, as bolas aéreas eram quase sempre minhas. Depois, apreciava a potência descomunal do remate do King. Era nele que me inspirava sempre que mandava um bujardo no cubículo, ao lado do largo onde costumávamos jogar.

Jornal O Naniko: Passou quase toda a adolescência no bairro a jogar à bola?

MC: Parte da adolescência. A determinada altura, talvez com 14 ou 15 anos, descobri o álcool e ele descobriu-me a mim. Lembro-me que a primeira bebedeira que apanhei foi na garagem do Higuita e que quando cheguei a casa vomitei. Tive de dizer à minha mãe que tinha comido um iogurte estragado. (risos) Depois comecei também a fumar cigarradas na Casa do Zé com os irmãos metralha, o Carrola, o Michael, o Mica, o Higuita, o Toni, o Hugo zarolho, o cigano Adelino… Comecei também a sair para os bares – o Praça, o Impacto, o Salão de Jogos do Flores, a Desportiva do Fundão… Bons tempos.

Jornal O Naniko: Segundo me disseram algumas pessoas, foi também nessa altura que começou a ouvir estilos de música mais extremos, o que lhe valeu a alcunha de Metal…

MC: Desde muito novo que ouço estilos de música alternativos. Lembro-me de ouvir o Roots e o Chaos A. D.  dos Sepultura, quando ainda lá estava o Max Cavalera. Os Korn foram também uma banda marcante para mim, sobretudo os primeiros álbuns, como o Korn – Korn, que tinha a música Blind, um verdadeiro marco. Os álbuns seguintes também eram muito bons, como o Life is Peachy, o Follow the Leader e o Issues. Depois também curtia Limp Bizkit antes de se terem tornado comerciais, Cypress Hill, Mad Ball, Soulfly, Rage Against the Machine, Pantera, Moonspell… Sempre ouvi muito metal, o que me ajudou a aprender inglês. Eu nunca estudava para os testes de inglês, limitava-me a ler letras de música. A minha mãe de vez em quando queixava-se da batucada, como ela dizia, e eu explicava-lhe que estava a aprender inglês. (risos)

Jornal O Naniko: Mas o metal funcionava também como uma forma de afirmação pessoal?

MC: Eu ouvia porque gostava. Só mais tarde é que percebi que isso chocava com algumas cabeças mais sensíveis. A determinada altura pode-se dizer que se tornou uma forma de me afirmar e de resistência às músicas comerciais. Quem entrava no meu carro só ouvia aquilo. E que ninguém viesse pedir para trocar de música… saltava logo borda fora! Dava-me gozo ver a cara das pessoas quando ouviam a minha música, elas não percebiam nada daquilo. Ainda por cima no Fundão, onde há aquela mentalidade retrógrada de recusar tudo aquilo que se não conhece… Lembro-me uma vez, em casa do Ucrânia, o Rebordão ter dito que queria ver um concerto dos U2 que estava a dar na televisão e eu ameacei que me ia embora. Levava a música muito a peito!

Jornal O Naniko: É verdade que chegou quase a vias de facto por causa da música?

MC: Sim. A determinada altura comecei a ouvir bandas ainda mais extremas, como Dimu Borgir, Iniquity ou Cradle of Filth. Os Cradle of Filth são uma banda que gosto muito. Têm grandes álbuns como Cruelty and the Beast, Midian, Damnation of a Day… O Dani Filth tem grande voz. Ainda sei algumas músicas de cor como Doberman Pharaoh (faz voz grossa e começa a cantar): ‘One final time, on the steps to the shrine / Of Thoth, I twined with fate / Let my people go / Still my word is no / Then Death shall be the deciding plague!'

A.F.: (encolhe os ombros e revira os olhos)

MC: …então houve um dia que, em casa do Ucrânia, quis mostrar ao Sapec a qualidade dos Cradle of Filth. Só que bastaram alguns segundos para que ele começasse a gozar com a música e eu disse-lhe que a partir daquele momento tudo aquilo que ele me dissesse não passaria da sola do meu sapato, posição que, de resto, ainda hoje mantenho. Nessa mesma noite, também em casa do Ucrânia, o gajo deu-me um beijo no pescoço e eu só não o esborrachei ali mesmo porque me seguraram. Actualmente já sou mais calmo, ouço o que gosto e se os outros estiverem incomodados posso mudar, sem problema. Mas naquela altura quem falasse mal da minha música punha a sua integridade física em risco.

Jornal O Naniko: Hoje em dia ainda ouve esse tipo de música?

MC: Sim, claro. Ao longo dos anos tenho descoberto grandes bandas. Algumas clássicas, como os Iron Maiden, Black Sabath. Dream Theater ou Candlemass. Esta última é uma das pioneiras do doom metal. Aconselho a ouvir o primeiro álbum deles, o Epicus Doomicus Metallicus. Atenção que descobri a maior parte destas bandas muito antes do aparecimento da internet. Eu lia regularmente publicações de metal e comprava cd. Interesso-me mesmo muito pelo metal. Actualmente descobri Russian Circles, Orange Goblin, Opeth e também várias bandas aqui da Irlanda, como Celtachor, Mael Mordha, Wreck of the Hesperus… Antes de vir para aqui, não fazia a mínima ideia que o metal era tão forte na Irlanda.



Jornal O Naniko: A maioria das pessoas com quem falei considera-o um estudioso, ou seja alguém que gosta de saber as coisas a fundo. E de facto tem-no demonstrado nesta entrevista com os seus vastos conhecimentos de metal, de futebol americano… Considera-se um homem renascentista?

MC: (risos) Homem renascentista?

Jornal O Naniko: Sim, considera-se uma pessoa que tem uma sede inesgotável de saber sempre mais e que gosta de dominar várias áreas do conhecimento?

MC: (fica pensativo) Sempre gostei de saber, de me preparar antes de fazer o que quer que seja, sempre gostei de ler, de estar informado. Por exemplo, quando era miúdo era o único que lia todas as informações e todas as falas do jogo Final Fantasy, mais ninguém tinha paciência para o fazer. E fazia-o porque gostava de saber a história, de ir à procura do porquê. Ainda hoje em dia sou assim. Com o aparecimento da internet já ninguém tem desculpa para não saber minimamente bem o que quer que seja. Eu não diria que estudo os assuntos – eu não ia propriamente de castigo para o meu quarto ler revistas de metal. Fazia-o porque gostava, porque, lá está, gostava de saber, de estar informado. E essa atitude tem-me acompanhado ao longo da vida.

Jornal O Naniko: Essa forma de estar tem sido importante na sua vida profissional?

MC: Eu diria que tem sido essencial. Então na minha área em que tudo muda a uma velocidade enorme… Na engenharia informática temos de estar sempre actualizados, sempre em cima da última jogada. Aliás, eu nem considero a informática uma engenharia. Veja o seguinte: os princípios básicos de engenharia para construir uma ponte mantêm-se praticamente os mesmos desde o tempo, vá lá, dos romanos. Claro que houve evolução, mas a base científica teve de se manter. Já na informática isso não acontece, os princípios básicos mudam, a linguagem de programação muda… Portanto tenho de estar sempre a actualizar-me.

Jornal O Naniko: Que conselho daria a alguém que esteja à procura de trabalho?

MC: Digo-lhe que não pare de aprender. É o maior erro que se pode cometer. Aqueles que saem da faculdade e que pensam que, por serem licenciados, já têm conhecimentos suficientes para trabalhar não têm hipóteses. É preciso ter a humildade suficiente para perceber que temos de ser estudantes a vida toda. Quem pára de aprender, fica obsoleto. É tão simples quanto isto.

Jornal O Naniko: Como a maioria dos Nanikos, o MC chega este ano aos 30 anos. Esse facto pesa-lhe?

MC: Não, nem por isso. Para falar a verdade nem tenho pensado muito nisso. Claro que vai ser estranho perceber que dentro de alguns meses a minha idade começa com o número 3. Talvez quando esse dia chegar pense mais sobre o assunto, mas de momento convivo bem com a ideia de que estou a chegar aos 30.

Jornal O Naniko: Estas primeiras três décadas têm sido bem vividas?

MC: Sim, acho que posso dizer que sim. Como em tudo, houve momentos bons, momentos maus, mas isso faz parte da vida.

Jornal O Naniko: Por falar em vida, já descobriu o seu sentido?

MC: Não, ainda não, acho que ainda é cedo. De qualquer modo, acho que a vida é um puzzle ao qual faltam sempre peças. Por muitos sábios e religiões que existam, ninguém pode dizer com sinceridade que tem a última peça. Ninguém sabe com cem por cento de certeza o que é anda aqui a fazer, se é que existe algum sentido para estarmos aqui. Mas acima de tudo creio que se Deus existir, então terá de ser um grande programador que criou o Universo através de um código ainda incompreensível para nós, humanos. Acredito que será a informática a desvendar os mistérios insondáveis da Criação Divina nas próximas décadas.

Jornal O Naniko: Qual foi a importância dos Nanikos nestes quase 30 anos?

MC: Foi muita, como deve calcular. Aprendi a beber como deve ser pelo garrafão, sem me babar, aprendi que tenho uma resistência fantástica ao álcool e que é possível ser um desportista de eleição e beber ao mesmo tempo, como demonstrou a equipa dos Nanikos FC, que encantou meio Fundão no início deste século. Apesar disso, acho que a equipa podia ter sido ainda melhor: o Bob Alpha defendia as bolas difíceis mas deixava entrar as fáceis; o Bojo tinha um grande remate mas nunca ajudava a defender; o Sapec era eficaz mas embirrava com o facto de a bola ser redonda; o Ucrânia era rápido mas muitas vezes corria sem sentido; o Xico tinha boa técnica mas dava sempre uma finta a mais e preferia o malabarismo à eficácia, porque estava mais preocupado em engatar fãs; o Bukowski passava bem mas atrapalhava-se com a gravata; o Marquito tinha boa visão de jogo mas era lento; o Llera tinha bom jogo aéreo mas dava demasiada sarrafada; o Bio era uma jovem promessa e dez anos depois... continua a ser uma jovem promessa. Enfim, a equipa deixava algo a desejar, apesar da vitória na Taça dos Garrafões Europeus em 2002.

Jornal O Naniko: Qual seria a música que escolheria como banda sonora dos seus 30 anos?

MC: Há tantas… (pensa durante alguns segundos) Talvez escolhesse o cover do Hallowed be thy Name, dos Iron Maiden, feito pelos Cradle of Filth. É sem dúvida das melhores músicas de metal que ouvi até hoje. (Começa a cantar) I’m waiting in my cold cell, when the light begins to chime / Reflecting on my past life and it doesn’t have much time / 'Cause at 5 O'clock they take me to the gallows pole, / The sands of time for me are running low, running low… É brutal!

A.F.: (encolhe os ombros e revira os olhos)

Jornal O Naniko: Que sonhos tem para os próximos 30 anos?

MC: (fica pensativo) Eu para já estou bem na Irlanda, mas tenho medo que isto um dia rebente, porque o crescimento aqui tem sido artificial. As empresas só vêm para cá porque o IRC é baixo e um dia isto pode mudar. Por isso, um dia gostava de ir para a Alemanha, ter lá um filho, abrir uma empresa de informática e experimentar todas as cervejas do mundo.

A.F.: (revira os olhos e encolhe os ombros)

MC: O que é? Não queres que o nosso filho nasça na Alemanha?

A.F.: O que é que isso importa? A mim tanto me dá que nasça nesta ilha como nas Berlengas. É igual!

MC: Não, não é. Na Alemanha o ar é diferente. Lá as crianças crescem fortes e saudáveis. Olha o Ucrânia. O Ucrânia só é Ucrânia de nome. Achas que se ele tivesse nascido em Kiev tinha aquele tamanho? Cá para mim ele nasceu foi em Coimbra, mais precisamente no Portugal dos Pequenitos. Por isso é que é importante que o nosso filho nasça no império. Só assim é que poderá crescer forte e vigoroso.

A.F: Sim, tens razão. Se o nosso filho ficar do tamanho do Ucrânia prefiro vendê-lo ao Circo Chen.

MC: (risos)



Jornal O Naniko: O que diz o seu fígado?

MC: (risos) Neste momento diz-me que está feliz com o que bebeu, mas que está a precisar de um absinto para assentar. O que lhe parece? Vamos a uma fada verde?

A.F.: (encolhe os ombros e revira os olhos) Oh MC! Não achas que já bebeste demais? Se bebes assim como é que queres que o nosso bebé nasça saudável e forte?

MC: Está calada. (chama o empregado) Excuse me. I want three absinthes please. Thank you. Mas voltando à sua questão, o meu fígado diz que tem gostado destes 30 anos. Diz que suportou relativamente bem os embates com o álcool, fosse cerveja, whisky, bagaço, licores… Diz também que se tem divertido, mas espera que nos próximos 30 anos os excessos sejam menos frequentes. Prefere mais qualidade alcoólica do que quantidade – se for para exagerar que seja com bom vinho ou boa cerveja. No que me diz respeito, estou completamente de acordo com ele. (sorri e afaga o fígado com a mão esquerda)

(Chegam os três absintos)

A.F.: (encolhe os ombros e revira os olhos) Eu não vou beber isto!

MC: (com um tom pedagógico) Vá, não sejas cortes! Segura lá no teu copo, vá. Temos de puxar. Vamos lá.

(Levantamos os três copos e brindamos)

MC: Então à nossa, aos nossos amigos, à nossa família, namoradas e namorados e aos Nanikos. Espero que os próximos 30 anos sejam devidamente embebidos em saúde, alegrias, sucessos, boa comida e bom álcool. À nossa!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Até sempre, King!



As antigas glórias dos Nanikos FC deixaram algumas palavras de homenagem ao Rei Eusébio que partiu no dia 5 de Janeiro de 2014. 

"Os remates do Eusébio eram travessões apontados à baliza, as suas fintas  vírgulas e ponto e vírgulas, os adversários reticências que caíam hesitantes e os seus golos exclamações em uníssono que rasgavam as redes do efémero."
                                                                           Ucrânia



"O Eusébio capacitou-nos a todos através de métodos não formais de jogar à bola. Mostrou-nos que os discursos divisionistas entre um norte desenvolvido e um sul subdesenvolvido não fazem sentido. Aliás, ele fez a ponte entre esses dois mundos, jogando futebol com as pessoas e para as pessoas e provando que dentro de um campo de futebol cabem todos: ricos, pobres, europeus, africanos, asiáticos... O grande legado que nos deixa é o seu percurso de vida, porque através dele vemos que não é apenas pela iniciativa individual, pelo empreendedorismo isolado que se superam obstáculos e que se chega ao topo. O Eusébio tinha sem dúvida um grande talento individual, mas foi enquadrado numa estrutura, o Sport Lisboa e Benfica, que o seu génio foi potenciado ao máximo, porque foi aí que encontrou as condições materiais e humanas para se transformar num dos melhores do seu tempo e num exemplo para as gerações vindouras."
Bojo


"Foi maior que Portugal, sobretudo do Portugal daquele tempo, que era um atraso de vida. Se o Eusébio tivesse ido mais cedo para os Estados Unidos da América teria sido idolatrado por milhões de pessoas e teria conseguido uma situação financeira muito melhor. Além disso, nos Estados Unidos seria um jogador muito mais completo, porque os métodos de treino na Europa são péssimos, é tudo de qualquer maneira, cada um joga por si, de forma anárquica. Nos Estados Unidos isso não acontece. À semelhança do futebol americano, na MLS cada jogador sabe o que tem de fazer, para onde deve correr, quando é que deve chutar, como é que deve festejar. Não é o atraso que é na Europa. Além disso, nos intervalos entram carros a arder e dois orangotangos sobem aos holofotes com tochas, o que é um verdadeiro espectáculo e uma forma única de promover a modalidade. Nos Estados Unidos da América, o merchandising da imagem do Eusébio valeria milhões de dólares e provavelmente daria nome a um complexo desportivo, a um hambúrger da McDonald's, a um refrigerante light e a uma marca de bronzeador solar."
MC


"O Eusébio devia ter apostado antes no Exército. Sobretudo naquele tempo, em que dava para viajar e conhecer outras gentes à pala do Estado. Além disso, ganhava-se mais e dava para ter uma situação mais estável sem lesões, nem operações ao joelho. Decidiu ser jogador de futebol... De qualquer modo, não se saiu mal, visto que ganhou imensos títulos e fartou-se de correr mundo à conta do clube. Até sempre King, és grande miúdo!"
Marquito


"Puto, o Eusébio foi daqueles jogadores que tinha um andamento brutal dentro e fora do campo. No relvado, os seus remates atingiam quase a mesma potência dos medronhos que bebo sempre que saio à noite. Depois dos jogos, as balizas adversárias estavam quase tão estragadas como a minha vesícula nas madrugadas de domingo. Fora das quatro linhas bebia whisky do bom e nunca se cortava sempre que o desafiavam. Nao era fraquinho e nem se desculpava que tinha jogos no dia a seguir. Um verdadeiro senhor."
Sapec


"O Eusébio era um jogador que sabia estar. Tinha estilo dentro dos relvados, apesar de se expressar com dificuldades, o que seria importante nos dias de hoje, porque os jogadores e os treinadores são referências para milhões de pessoas e não podem apenas saber dar dois chutos na bola. Também têm de saber comunicar e transmitir valores. Agora o que eu não concordo é com todo este mediatismo em torno do Eusébio nos últimos dias. O pessoal só fala de bola, parecem uns maluqinhos que não conseguem conversar sobre outra coisa. Não achas? É que esta merda faz-me impressão, ver toda a gente a falar de futebol enquanto o governo continua a roubar-nos a torto e a direito. O futebol apenas serve para nos distrair e para embrutecer. É sempre a mesma merda, todos os dias isto e depois vêm também com essa conversa do empreendedorismo quando ando sempre a ser roubado. Vão todos para a puta que vos pariu! Mas voltando ao Eusébio, queria apenas enviar-lhe um grande abraço e os meus sentimentos à família"
Xico Xico


"O Eusébio? Estás tolo ou quê? Mas achas que eu agora vou falar do Eusébio? Diz-me lá, achas que isso me interessa para alguma coisa? A sério... Eu não ligo nada à bola, tanto me faz se ganha um ou ganha outro e sou eu agora que vou falar do Eusébio. A sério... só me faltava agora esta. Eu até era do Sporting por causa do meu professor de História, vê lá.  Ele disse que o clube foi fundado por uns extraterrestres vindos do planeta Faringite IV que começaram a limpar a calçada de Lisboa para conseguirem dinheiro para voltar a casa. Eu não tenho muito para dizer do Eusébio. A sério... Foi um grande jogador e espero que apareçam outros para que as pessoas andem felizes. É só isto que eu tenho para dizer."
Diana


"O Eusébio era fortíssimo. Um jogador com um remate impressionante e com grande velocidade. É verdade que venceu tudo no Benfica, mas se tivesse jogado na Margem Sul seria ainda melhor. Eu antes também falava mal dos canaviais, dos bairros clandestinos sem esgotos e das raparigas que se oferecem a todos, mas agora percebo que esta margem é muito forte em termos futebolísticos e em termos de seios. O Eusébio se tivesse jogado no Real Clube de Vale Cavala tinha ganho o campeonato distrital de Setúbal, o que nunca conseguiu no Benfica. E os adeptos em vez de lhe fazerem uma estátua em frente ao estádio tinham antes derrubado o Cristo Rei e posto lá o Eusébio com um turbante. Foi sem dúvida um jogador fortíssimo. Quer uma tâmara?"
Manolo


"Eusébio foi a mescla, a fusão. Era o artista de rua que levou a sua arte rebelde e transgressora para dentro de campo. Foi um grafitter dos relvados, um writer de chuteiras. O Eusébio representa a união de povos, dentro dele cabia o Martim Moniz e um bocadinho do Rossio. Era também poesia em movimento, que chamava pelo que há de mais fundo em nós, pela nossa seiva primordial. Enfim, o futebol de Eusébio era um eterno regresso às nossas raízes."
Sara


"Quem, caralho? Ah, o Eusébio. Foda-se falas tão baixo que um gajo não te percebe. Sei lá o que é que hei-de dizer do Eusébio, caralho! Olha, uma coisa que gosto nele é que nem o nome próprio nem os nomes de família têm a letra "h". Já repararam? No meu teclado inglês posso escrever sem problemas Eusébio da Silva Ferreira. Se pudesse gostava de fazer um jogo com o Eusébio. Ele começava como um jogador normal em África e depois ia ganhando velocidade e força. Na última fase de evolução transformava-se numa super pantera negra que derrotava o Pelé no Maracanã. Mas foi um grande jogador. É pena o Benfica não ter lá mais como ele. Hoje em dia esta merda é só estrangeiros que só lá estão pelo dinheiro ou o caralho. É fodido o Benfica voltar a ter jogadores assim, porque isto está tudo feito para serem sempre os mesmos a ganhar. Mas pronto, o Eusébio é o Eusébio e será sempre um grande símbolo de Portugal."
Solid

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Viagem ao mundo da Bundesliga

Tranquei a porta de casa e apontei o azimute para o centro da Europa, rumo ao país que toda a gente ama odiar – a Alemanha. Parti sem mapas, guias turísticos ou brochuras com os dez locais a não perder. Como deve ser, portanto. Prefiro trocar os postais ilustrados pela surpresa e o deleite do que for descobrindo enquanto desmorono imponentes canecas de cerveja e degluto sauerkraut, maultaschen e demais pratos típicos. No entanto, ainda antes de sentir o ar suevo, já tratara do mais importante: a aquisição do bilhete para o jogo Estugarda – Bayer Leverkusen no Mercedes-Benz Arena. Natürlich.


Desdenhado durante anos pela fantasia e tecnicismo latinos, o musculado futebol teutónico vive em estado de graça por estes dias. O atropelamento e fuga do Barcelona e do Real Madrid às mãos do Bayern e Borussia Dortmund, respectivamente, e o subsequente recital de bola que ambos deram em Wembley, na final da Liga dos Campeões, transformaram a Bundesliga na nova Meca de todos os que fazem dos 90 minutos uma liturgia imprescindível para enfrentar mais uma semana de trabalho. A primeira jornada da nova temporada confirmou e reforçou a crença dos milhões de fiéis nas novas virtudes que florescem nos relvados além Reno. Na verdade, foi como encontrar água fresca após atravessar o desértico período estival: 37 golos em nove jogos, média superior a quatro por encontro e resultados tão equilibrados como um empate a três bolas ou tão desnivelados como uma goleada das antigas por 6-1. Impossível não ficar extasiado perante um cartão de visita tão sumptuoso.

Quanto ao Estugarda, a equipa que iria apoiar daí por uma semana, começou a época com uma derrota por 3-2 no land Renânia Palatinado frente ao Mainz 05. Ibisevic e Martin Harnik fizeram os golos da formação orientada por Bruno Labbadia, treinador germânico de 47 anos que vai para a sua quarta época ao leme do clube. Esteve longe de ser o pontapé de saída ideal para os Schwaben, que procuravam no arranque da Bundesliga passar uma esponja sobre a má temporada anterior.

Ao reler as notas que apontei no meu bloco antes voar para a Alemanha, confirmei que a conquista do Deutsche Meisterschale em 2006 / 2007 foi um feito que tão cedo não se repetirá no sudoeste germânico. Bem podem os adeptos do Estugarda guardar em lugar seguro as festivas garrafas de cerveja, porque a equipa não passa de um anão de jardim ao lado dos colossos Bayern e Borussia. Na temporada passada, a equipa terminou em 12º lugar com um dos piores ataques (33 golos) e com uma das piores defesas (55). Registo pouco abonatório, apenas compensado pela presença na final da Taça da Alemanha, na qual não resistiu à locomotiva bávara na sua caminhada para o triplete (derrota por 3-2).


Por ter sido finalista vencido da DFB-Pokal frente ao campeão, o Estugarda iniciou esta temporada mais cedo devido aos soporíferos compromissos da Liga Europa. Quando lhe tocou em sorte o quase desconhecido Botev Plovdiv na terceira ronda de acesso ao play-off da prova, mesmo o adepto mais pessimista esperaria duas vitórias tranquilas. A equipa, contudo, restringiu-se aos serviços mínimos, passando graças a um empate forasteiro a uma bola, enquanto que em casa segurou o nulo. Resultados mais austeros eram impossíveis. Convenhamos que é um pecúlio medíocre para quem faz parte da toda poderosa Bundesliga. Já na Taça da Alemanha, a formação sueva bateu fora o Berliner FC Dynamo, da quinta divisão, graças a um bis de Ibisevic. Em suma, é com o pobre registo de uma vitória, dois empates e uma derrota que vou travar conhecimento na primeira pessoa com o conjunto de Baden-Württemberg, naquela que é a minha estreia absoluta na elite do futebol alemão.

O dia 17 de Agosto chega por fim e, para cúmulo, não me encontro nas melhores condições físicas. Por razões ainda por apurar (excesso de cerveja?), os meus intestinos tornaram-se numa imensa via verde onde a fluência do meu trânsito escatológico consegue ser superior ao trânsito motorizado na inóspita A23. Depois de uma noite difícil, a manhã desfez-se penosamente até que, gradualmente, começo a sentir-me melhor. Na minha carteira, e da minha fräulein, já reluzem os bilhetes do jogo que chegaram na véspera por correio. Quando abrimos o envelope, descobrimos que temos direito a utilizar gratuitamente os transportes públicos para irmos para o estádio e para regressarmos. É a organização alemã, e em específico da Bundesliga, a funcionar diante dos nossos olhos. Por estas e outras razões, os estádios germânicos apresentam as maiores enchentes na Europa. Outro aspecto a destacar é o preço do bilhete: pagámos 26€ cada, valor que está longe de ser elevado, sobretudo se considerarmos os ordenados que se pagam aqui comparativamente com Portugal. (Nestes momentos em que me fascino com algum aspecto da eficiente engrenagem teutónica, lembro-me sempre da resposta que o MC me deu no InterRail de 2009 quando saímos da Alsácia rumo a Berlim e gabei o comboio alemão em que íamos pela sua qualidade e luxo: “Mas era disto mesmo que eu estava à espera. Por alguma razão a Alemanha é o país mais avançado da Europa.” É provável que depois tenha rematado a sua observação com alguma invectiva à França e aos franceses, mas confesso que não me recordo.)


Aproveitando uma trégua momentânea dos meus intestinos, vou com a minha fräulein até ao Flohmarkt (feira ao ar livre) na Karlsplatz. Quando íamos a meio caminho, na ponte que dá para o Schlossgarten, cruzámo-nos com a equipa do Bayer Leverkusen que dava o seu passeio da manhã. Pareceu-me ver o Kiessling (já me cruzara com ele num jogo frente ao Leiria há alguns anos), enquanto que os outros eram simples anónimos para mim. Ainda pensei em gritar “Benfica!”, lembrando-lhes a eliminatória da Liga Europa do ano anterior, no entanto, o bom senso e o meu estado enfermiço não mo permitiram.

A hora do jogo aproxima-se. Apesar das nuvens ameaçadoras que se acastelam no horizonte e do vento que se levantou, parece que o sol vai brilhar. O apito inicial está marcado para as 15h30m, o que é mais uma diferença em relação a Portugal (e, já agora, a Espanha), onde reina o futebol à luz do holofote. Saímos de casa com tempo e apanhamos o metro em direcção às margens do tranquilo rio Neckar, na zona de Bad Canstatt, onde fica o Mercedes-Benz Arena, além do moderno e imponente museu da marca automóvel (vale bem a pena dar os oito euros para o visitar). A este propósito, refira-se que Baden-Württemberg é uma das zonas mais ricas da Alemanha, com a menor taxa de desemprego do país e sede de várias empresas mundialmente famosas (Mercedes-Benz, Porsche, Bosch…), as quais foram decisivas para o tão falado milagre económico após o final da II Guerra Mundial. Outra curiosidade: esta é a única província da Alemanha que produz vinho, pelo que as verdejantes vinhas proliferam quer pelas colinas em torno da cidade quer no centro. É de longe a região do país com o maior consumo per capita do néctar dos deuses, dando razão de ser à questão pertinente de Friedrich Schiller em 1782: “Ein Wirtemberger ohne Wein kann der ein Wirtemberger sein?” (“Um Wirtemberger sem vinho pode ser um Wirtemberger?”). No entanto, da minha experiência, os vinhos portugueses são bem melhores do que os produzidos nesta zona.


Quando saímos do metro, tenho a sensação de estar num cortejo silencioso de camisolas vermelhas e brancas. Um vasto rio humano, que gradualmente vai engrossando, dirige-se calmamente para o estádio. Não há passos apressados, nem gritos ou cânticos, sendo difícil perceber a excitação e a expectativa contagiante que normalmente antecedem os jogos de futebol. Enfim, formas diferentes de sentir em relação aos latinos, quase sempre mais esfusiantes e expansivos. Olhamos novamente para o verso do bilhete, onde temos a configuração do estádio com as quatro bancadas identificadas, pelo que não é difícil orientarmo-nos até à entrada mais próxima dos nossos lugares.

Já estamos dentro do recinto do Mercedes-Benz Arena, que refulge com a sua pala branca ao sol. Devido às sucessivas remodelações de que tem sido alvo, não aparenta em nada a idade que tem, exalando modernidade, com espaços amplos em redor. Por essa razão, nunca há a sensação de aperto apesar da multidão que se aglomera à sua volta. A título de curiosidade, refira-se que o estádio foi desenhado pelo arquitecto Paul Bonatz e mudou várias vezes de nome ao longo da História, tendo sido originalmente baptizado de Adolf-Hitler-Kampfbahn, aquando da sua fundação em 1933. Após a II Guerra Mundial, as tropas americanas utilizaram-no para jogar baseball, tendo-se chamado posteriormente Neckarstadion e mais tarde Gottlieb-Daimler-Stadion, em homenagem ao criador da Daimler e pioneiro no desenvolvimento do automóvel tal como o conhecemos nos nossos dias.  


Finalmente ouço dois adeptos cantarem nas imediações do estádio por breves segundos. O meu alemão (suevo?), contudo, não é suficientemente bom para percebê-los, mas trata-se de uma rima com a palavra Bayer Leverkusen. É provável que não estejam a desejar-lhes umas boas férias de Verão. Entramos dentro da Mercedes-Benz Arena com as suas bancadas totalmente vermelhas. Trata-se de um estádio elegante e apesar de ter capacidade para 60 mil pessoas nos jogos da Bundesliga, não me parece tão imponente como o Estádio da Luz. Vamos ficar num dos topos, na Cannstatter Kurve, bem ao lado da claque do Estugarda que vê o jogo todo de pé, uma vez que onde estão não há cadeiras. Este foi um facto que me surpreendeu na altura em que comprámos os bilhetes pela internet: afinal ainda existem os famosos terraces na Europa do futebol, os quais deram fama mundial aos adeptos e bancadas de tantos clubes, caso do Kop em Anfield Road. No entanto, por imposição da UEFA, não podem ser utilizados nas competições europeias, pelo que a capacidade diminui para 54 mil lugares.

Magotes de adeptos munidos de cachecol, camisola do clube e a imprescindível cerveja, aqui servida em copos de plástico de meio litro, vão preenchendo os seus lugares. Trata-se de uma outra novidade para mim: nos estádios alemães pode-se beber sem qualquer problema. Seria aliás uma blasfémia que se vendesse apenas cervejas sem álcool nos länder germânicos, onde a bebida é produzida com inigualável mestria. E a verdade é que, mesmo inundados em cevada, todos se comportam de forma civilizada, demonstrando um respeito pelos outros e pelo espaço público tão natural que é difícil de pôr em palavras. A este propósito, deve confessar que achei os alemães desta zona bastante simpáticos. Meteram conversa connosco no metro, no supermercado e, quando me viram abrir o mapa no meio da cidade, houve uma pessoa que veio ter comigo e que perguntou se precisava de ajuda. Sinceramente, só a ignorância é que nos faz continuar a alimentar tantos preconceitos em relação à Alemanha e aos seus habitantes. Actualmente deverá ser dos países mais multiculturais da Europa. Dois factos lidos num guia sustentam a afirmação anterior: os emigrantes constituem um terço da população de Estugarda devido, em grande medida, ao facto de ser uma zona de forte pendor industrial e Hamburgo é a cidade com mais mesquitas na Europa.


A voz viva e entusiasmada do speaker faz a apresentação dos novos reforços do clube. Vejo os nomes no painel electrónico e identifico-os na revista alusiva ao jogo que é distribuída à entrada do estádio. É um auxiliar precioso para quem não conhece a grande maioria dos jogadores, como é o nosso caso. Tem a cara, a posição e o número de todos os futebolistas do Estugarda e do Bayer Leverkusen e também as fichas de jogo dos encontros mais recentes dos Schwaben. E quanto ao histórico dos últimos confrontos com o adversário da Renânia do Norte-Vestefália? Também tem, além de uma reportagem sobre um jogo marcante entre ambos. Trata-se de uma publicação feita a pensar nos adeptos, ajudando-os a desfrutar melhor da partida. Além disso, é mais um pequeno exemplo que explica o crescimento da Bundesliga nos últimos anos, a qual atrai não apenas homens, mas também bastantes mulheres e crianças como posso ver à minha volta.

Em fila indiana, lado a lado, as duas equipas saem do túnel em direcção ao relvado impecável ao som de uma música que dá uma forte carga épica ao momento. Em simultâneo, o speaker anuncia os jogadores da casa um a um, dizendo apenas o primeiro nome, enquanto o público grita em êxtase o seu apelido. Os cachecóis vermelhos e brancos redemoinham em uníssono e as bandeiras altas com as mesmas cores ondulam na Cannstater Kurve. No meio há uma de cor amarelo vivo com o símbolo da cidade estampado  - um cavalo negro com as patas dianteiras levantadas. O resto do estádio aplaude de pé a estreia do Estugarda em jogos do campeonato no Mercedes-Benz Arena. Um ambiente eléctrico, de excitação, de expectativa nervosa, percorre as bancadas. Provavelmente deverá haver alguma semelhança entre isto e os momentos que antecediam as grandes batalhas, quando rufavam os tambores dos exércitos beligerantes, dispostos frente a frente. Canta-se entusiasticamente ao meu lado e agora os adeptos da claque esticam os braços, alinhados numa coreografia, seguindo as indicações do líder que se senta de costas para o relvado num banco mais elevado e grita palavras de incentivo por um megafone. Ao vê-los, e talvez por estar na Alemanha, vêm-me por momentos à cabeça épocas sombrias da História. Afasto de imediato esses pensamentos e concentro-me no jogo que acaba de começar.


Apenas com dois minutos decorridos, o eterno Kiessling quase faz o golo 100 pelo Bayer Leverkusen, ao desviar um remate frouxo de um colega seu à entrada da área. O seu intento, no entanto, foi travado pelos reflexos do guarda-redes Sven Ulreich que defendeu com a perna. O público aplaude a intervenção, tentando desta forma sacudir o nervosismo provocado pela entrada desastrada da equipa. O Estugarda procura atacar, mas rapidamente percebo que o seu futebol é falho de ideias e criatividade.

Nos primeiros minutos, o jogo passou por alguma indefinição, com demasiados passes errados, o que levou a minha fräulein a fazer a seguinte observação: “Estou a assistir a um jogo da III Divisão ou da Bundesliga?” Num assomo de brio, a formação de Bruno Labbadia empertigou-se e, numa excelente jogada pela direita, Ibrahima Traore apareceu já dentro da área com tempo e espaço suficiente para marcar. O estádio levanta-se como uma onda que cresce antes de rebentar ruidosamente. É impossível falhar, vai ser golo… mas o remate sai lado para frustração dos 40 mil espectadores que quase lotam o Mercedes-Benz Arena. Erguem-se os braços como apontassem para o céu, clamando por uma intervenção divina; põem-se as mãos na cabeça; ouvem-se urros de impotência; sentamo-nos resignados e a claque volta a entoar cânticos de apoio. Ainda inconformado, um adepto que está na fila imediatamente a seguir à minha vira-se para trás e diz algo como “tinha a baliza à sua frente, como é que é possível!?” Lá atrás, a defesa sueva continua a demonstrar que tem a consistência de um apfelstrudel ao sol e, se não fosse o poste, o Bayer Leverkusen já estaria em vantagem, após remate, dentro da área, de Sydnei Sam.


O jogo prossegue em toada morna. Na bancada, os incansáveis adeptos da Cannstater Kurve cantam repetidamente algo como “Schiessen am Tor” (“Chutem à baliza") ou VFB (que em alemão é "FAU FB"). O Estugarda, contudo, não corresponde dentro de campo e Kiessling volta a estar perto de marcar num remate por cima. Sem ideias, o futebol ofensivo da equipa de Labbadia é presa fácil para a defesa forasteira. Arthur Boka, responsável pela primeira fase de construção de jogo, é incapaz de soltar um pingo de criatividade das suas botas, limitando-se a fazer passes longos para as laterais, quando não para fora. Tirando algumas incursões voluntariosas de Ibrahima Traore, não há um rasgo, um desequilíbrio, um lampejo inesperado de génio que ilumine o breu de ideias do conjunto de Baden-Württemberg. Lá à frente, Ibisevic, avançado que fez fama no Hoffenheim e que tinha curiosidade em ver jogar, faz-se notar pela ausência. Nenhuma bola lhe chega em condições. O Bayer Leverkusen continua a ameaçar, com os seus ataques a serem conduzidos pelo sul-coreano Son (bom toque de bola) e por Sam. Até que perto do intervalo surgiu o inevitável. A defesa do Estugarda foi ultrapassada, Boenisch ganhou a linha de fundo no lado esquerdo do ataque e cruzou rasteiro para o corte de Schwaab na direcção da própria baliza. Pouco depois, terminou a primeira parte para desânimo dos adeptos locais, desencantados por um desempenho tão pobre dos Schwaben.

Ao intervalo, dei vazão aos meus incansáveis intestinos e constatei que as casas de banho do estádio do Estugarda fazem inveja às que existem em muitas pastelarias em Portugal em termos de asseio. Não há um único gatafunho nem frases filosóficas sobre a mui nobre arte de defecar nas portas, acreditam? Pois acreditem, assim como havia papel higiénico, papel para as mãos e sabão, o que tantas vezes falta em muitos estabelecimentos comerciais do nosso país.


Com os copos de cerveja atestados, os adeptos partiram para a segunda parte com a esperança de ver, por fim, bom futebol. Labbadia deixou nos balneários o inconsequente Arthur Boka e Konstantin Rausch e fez entrar o internacional alemão Cacau e Timo Werner. No entanto, para desânimo geral, o Bayer Leverkusen voltou a entrar melhor, estando mais perto do golo em várias situações.

Com o passar dos minutos, os forasteiros começaram a recuar cada vez mais no terreno com o intuito de segurar a vantagem e o Estugarda aproveitou o convite para se acercar da baliza de Bernd Leno. As incursões de Cacau galvanizavam o público, mas a má qualidade dos passes e dos cruzamentos (quase sempre demasiado largos), facilitavam o trabalho do adversário. Em contra-ataque, o conjunto do finlandês Sami Hyppiä podia ter resolvido o jogo, mas Kiessling foi displicente ao demorar tanto tempo, permitindo o corte da defesa quando estava em boa posição para marcar.

Sempre com o coração, o futebol sem ideias dos Schwaben lá ia tentando furar a defesa dos Werkself. O remate de longe de Christian Gentner passou a milímetros da barra para desespero da Cannstatter Kurve que, frustrada, fazia esvoaçar copos de cerveja contra a rede de protecção. Numa jogada confusa dentro da área, o fantasma de Ibisevic quase desceu à terra, mas a bola acabou por ser rechaçada e, já em desespero, Timo Werner rematou rasteiro junto ao poste, mas o guarda-redes Bernd Leno defendeu para canto. Foi o canto do cisne, um cisne bem tosco e sem criatividade, por sinal, que acabou derrotado por um adversário que criou oportunidades suficientes para evitar o sofrimento por que passou no último quarto de hora.


No final, o guarda-redes Bernd Leno, bastante contestado por perder tempo nos pontapés de baliza (valeu-lhe um amarelo), provocou a turba ruidosa da Cannstatter Kurve, o que originou um tête-à-tête com Ibrahima Traore, ao qual acorreram de pronto os jogadores das duas equipas. Na bancada voavam copos de cerveja, revistas e insultava-se o guardião do Bayer Leverkusen.

Sanadas as escaramuças, os jogadores do Estugarda agradeceram o apoio incansável dos adeptos que retribuíram com uma ovação, apesar da exibição fraca a que tinham assistido. Foram sem dúvida o décimo segundo elemento em campo e mereciam uma equipa que praticasse um futebol mais agradável. A continuar assim, os Schwaben vão voltar a sofrer bastante na luta pela sobrevivência na Bundesliga. Quanto à Liga Europa, dificilmente passarão da fase de grupos.


Saímos do estádio sem qualquer tipo de problemas e dirigimo-nos para a estação. Apesar da derrota, os adeptos falavam animadamente sobre o jogo. Dois metros tinham acabado de sair e um minuto depois chegaram outros dois, vazios. Entrámos e fizemos a viagem sentados, sem nunca nos sentirmos apertados e sem qualquer tipo de atropelos, deixando bem patente o civismo exemplar de toda a gente. Assim vale a pena ir ao futebol, mesmo quando o jogo deixa a desejar como foi, infelizmente, o caso. De qualquer modo, aqui onde estou, na companhia de uma excelente cerveja de trigo alemã, aproveito para fazer um brinde à Bundesliga e ao meio século de vida comemorado este ano. Prost!


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Homem para além do Homem

Tiago Bobfit Afonso, a promessa do Homem para além do Homem. Tiago Bobfit Afonso, o encontro do Homem com o Divino. Tiago Bobfit Afonso, o ser que rasgou as cordilheiras físicas para erguer abóbadas celestiais.  Tiago Bobfit Afonso, a ausência de impossíveis. Tiago Bobfit Afonso, a ressurreição do Hércules dos doze trabalhos. Tiago Bobfit Afonso, o sopro da mitologia clássica. Tiago Bobfit Afonso,  a aspiração supra-terrena do dia sem noite, da vida sem morte. 


Em cada músculo latejante, veia intumescida, abdominal retesado, pérola de suor, esgar de dor, há uma promessa do divino, o fulgir da transcendência, o desenrolar da carpete metafísica dos deuses que nos aguardam do lado de lá da porta. Quando a noite cai na Cova da Beira e as pessoas recolhem ao sossego dos lares, ele sobe aos cumes mais altos, ergue as pedras mais pesadas, arranca as árvores mais viçosas e enfrenta as bestas mais brutais. Saciado de tantas façanhas, aspira o frio crepuscular  em longas golfadas  e liberta o seu bramido atroador que reverbera pelas quebradas serranas e destrói todas as fundações e comodismos onde o Homem deixou engordar a sua Vontade de ser mais, a sua Vontade de conquista, a sua Vontade de poder. Depois, ergue o cálice da sua força ciclópica às estrelas lucilantes e, insatisfeito com a sua vitória sobre o mundo físico, demasiado físico, aventura-se pelas montanhas que se erguem acima dos limites humanos, pelos desafios mais transcendentes e pelas conquistas intemporais que encontra dentro da sua ousadia, do seu desejo indómito de ir mais além, de abraçar a imortalidade e de saborear a ambrósia divina num faustoso bródio ao lado de Zeus.

Não tenham dúvidas. Tiago Bobfit Afonso é a derradeira hybris do Homem lançada aos deuses. 

domingo, 19 de junho de 2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

NanikLeaks - MC e a luta pela independência da Cova da Beira

O presente telegrama centra-se em MC e na sua luta pela independência da Cova da Beira. Depois do InterRail de 2009, o embaixador norte-americano alertou a cúpula do poder em Washington que o adorador de metal e elemento dos Nanikos FC estava cada vez mais empenhado em iniciar uma guerra sem quartel pela independência da região em relação a Portugal. Como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, Thomas Stephenson foi lesto a evitar que o seu plano fosse avante. Para facilitar a leitura e compreensão, o telegrama foi traduzido para português.

ID: 142126
Date: 2009-09-16 04:58
Origin: 09LISBON433
Source: Embassy Lisbon
Classification: CLASSIFIED
Destination: VZCZCXYZ0000
FM AMEMBASSY LISBON
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC 6632
INFO RUCPDOC/DEPT OF FOREIGN AFFAIRS WASHDC

C L A S LISBON 000433
TAGS: MC, COVA DA BEIRA, INDEPENDENCE; NANIKOS
SUBJECT: MC’S ACTIVISM FOR THE INDEPENCE OF COVA DA BEIRA
REF: STATE 13169 POST/DEPARTMENT
OFFICE: FCS, ODC, Pol/Econ
COUNTRY: Portugal

1. Encravada entre montanhas, cerros e quebradas, a Cova da Beira é um dos locais mais remotos de Portugal Continental. Os seus habitantes, maioritariamente rurais, analfabetos e pobres, desde sempre se conformaram com a sua sorte e com o que a terra lhes dá, não acalentando outras ambições para além da lavoura de sol a sol, do tinto na tasca com os amigos e do dinheiro ao final do mês para pagarem os impostos e encherem o depósito do tractor. Apesar das dificuldades, até há bem pouco tempo ninguém parecia disposto a fazer o que fosse para se libertar da situação de miséria em que se encontra, tal é o hábito de obedecer a todas as ordens, desde as emanadas pelo poder abstracto de São Bento até às do sino, que com as suas badaladas concretas lhes diz quando devem pegar e largar o trabalho, quando devem tomar as refeições e quando é que devem dormir e acordar.

2. Esta mansidão de espírito foi agitada rcentemente com a actividade subversiva de MC, um dos elementos dos Nanikos, que de há alguns anos para cá começou a defender a ideia de tornar a Cova da Beira independente. Foi uma verdadeira pedrada no charco para a região que, qual gato indolente, dormia sob o seu conformismo de fome e rotina. Creio que essa missão utópica com a qual se comprometeu terá germinado após uma viagem ao País Basco. É muito provável que tenha entrado em contacto com células da ETA, que o terão incentivado a seguir o caminho da luta secessionista em Portugal. Inicialmente, tudo não passava de fanfarronice e folclore que, mais não fosse, alegrava os amigos nas pachorrentas noites beirãs.


3. No entanto, desde que regressou do InterRail, a sua ideia ganhou consistência. Segundo as informações recolhidas pelo nosso contacto na Cova da Beira, o senhor *, é agora frequente vê-lo discutir por entre cafés e casas particulares os moldes pelos quais se fará a independência da região. No seio dos Nanikos há quem prefira partir desde já para a luta armada, como o Ucrânia, que defende a necessidade de tomar de assalto os postos da GNR; outros, como é o caso do Bojo, preferem um caminho mais longo, que passará pela sensibilização e consciencialização dos habitantes para a necessidade de se tornarem independentes de Portugal. Divisões à parte, a verdade é que a ideia está a ganhar forma e até já foi delineado a organização administrativa do país por vir. Assim, a Covilhã será a capital do país, por ser a cidade mais desenvolvida e com maior capital humano; o Fundão será a capital administrativa, basicamente funcionando como o escritório burocrático da capital; Belmonte será a capital financeira, devido à sua vasta e próspera comunidade judaica, vista como um verdadeiro Wall Street beirão. Além disso, determinaram que o rio Zêzere será o primeiro curso natural cujas águas não chegarão ao mar, nascendo e morrendo na Cova da Beira graças à construção de enormes barragens; a Soalheira, por sua vez, e apesar de já não fazer parte da região, também se tornará independente com o objectivo exclusivo de produzir energia solar.

4. Sinceramente não sei se o plano irá para a frente, mas é preciso actuar desde já. O MC participou recentemente no programa de estágios profissionais no estrangeiro denominado InovContacto. Depois de várias diligências consegui obter junto da AICEP os resultados que obteve. Foram bastante bons, pelo que não devemos desperdiçar a oportunidade de enviá-lo quanto antes para o estrangeiro para que ocupe o seu espírito com outros assuntos que não a independência da Cova da Beira. Como é formado em informática, tomei a iniciativa de contactar a Cisco em São Francisco e exigi-lhes que fosse integrado nos quadros da empresa, independentemente de haver trabalho ou não. Se levantarem problemas de ordem financeira, creio que o nosso Governo não se importará de lhes pagar o ordenado do MC. De certeza que ele irá ficar contente e rapidamente se esquecerá da Cova da Beira.

5. “Um artista de circo que se deixa aplaudir é já um burguês”, escreveu Jean Genet. Aqui aplica-se a mesma fórmula. Damos-lhe hoje a oportunidade única de trabalhar na maior empresa de informática do mundo a milhares de quilómetros de distância e amanhã ele já não saberá identificar a Cova da Beira no mapa.

Nota 1: O estágio na Cisco deverá começar em Janeiro. Depois voltarei a falar com o presidente para o integrarem em definitivo.

Nota 2: Não sei se receberam o pack de vinho Alcambar que enviei há duas semanas. Em caso afirmativo, não o bebam! Disseram-me que era um vinho de topo da Cova da Beira, mas afinal não passa de uma purga. Sugestão: apliquem-no como método de tortura aos prisioneiros de Guantánamo. Vão ver como é eficaz.

Nota 3: Há em Portugal um cronista social chamado Carlos Castro que na semana passada escreveu um artigo bastante ofensivo na revista ** sobre a indumentária que usei na cerimónia de caracóis e champagne na Embaixada de França. Temos de fazer alguma coisa em relação a esse gajo. Pensem nisso.

Stephenson

* Por questões de segurança, o Jornal O Naniko não revela o nome
** Por questões de higiene, o Jornal O Naniko não revela o nome

segunda-feira, 28 de março de 2011

Leitor, lê-nos como se não houvesse letras amanhã

Caro leitor, é com incontida emoção que o Jornal O Naniko está neste momento a largar duas pingas de urina pelas páginas abaixo por voltar a ser lido por ti. Como nos sentimos felizes quando passas os teus bonitos olhos pelas linhas que escrevemos… Sobretudo quando nos lês na diagonal. É uma sensação indescritível. E que saudades tínhamos... Um suor frio galopa neste preciso momento pelos nossos parágrafos acima à medida que a tua íris desliza lascivamente pelos contornos das letras; as vogais ficam todas em pele de galinha; as vírgulas transformam-se em exclamativos pontos de exclamação mesmo que a sintaxe da oração não o justifique!; os pontos finais suspiram por mais; as linhas estendem-se até ao infinito em êxtases emocionados, como esta aqui que continua e continua e continua sem fim à vista, a curtir uma de Saramago, até que chega a um ponto em que tenho de lhe pôr um ponto, de preferência parágrafo, mas não consigo, por isso continuamos ali em baixo, não, ali, inclina um pouco mais a tua cabeça, não, no outro sentido, isso, aí

Quando relês a mesma linha também sabe bem, mas convém não exagerar. As outras frases ficam roídas de inveja e vêm logo com a conversa de que não gostam de fazer parte dos textos que escrevemos, que são mal pagas e que querem emigrar para artigos e blogues onde são grafadas com dedos besuntados de caviar, como o Abrupto. Em retaliação, eu, director, relembro-lhes que anda por aí um novo acordo ortográfico e se necessário for aplico-o de imediato sem direito a discussão. Assustadiças como são, as palavras engolem as suas próprias palavras e vão pregar para outra freguesia. E foi assim que recentemente assinámos um bonito pato de não agressão, não foi pacto? E começámos todos a falar com elevação e correção e não houve mais nenhuma ação e atividades subversivas contra mim, porque mesmo sem enfardar ostras e cadelinhas também sei ser abruto. Estou a brincar, não se vão embora porque ainda temos muito que contar ao nosso estimado leitor que, a esta hora, já deve estar a um clique de se trasladar para o redtube.


É verdade que nos votámos deliberada e conscientemente a um prolongado silêncio, o que de maneira nenhuma deve ser confundido com inacção. Na sombra estivemos a trabalhar para voltarmos a dar vida a esta prístina infusão de ideias, reflexões, mundividências e cidreira, familiarmente chamada blogue dos Nanikos FC. Apenas regressámos agora porque no passado mês de Dezembro a nossa redacção foi contactada por Julian Orange, fundador da organização NanikLeaks, para a publicação de milhares de telegramas confidenciais da embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) em Lisboa sobre o nosso muy nobre e estimado clube. O acervo de documentos para análise, ordenação e publicação revelou-se tão vasto e complexo que este jornal teve de pedir ajuda ao matutino O Bombo de Lavacolhos, ao hebdomadário Regadio de Artes, Letras e Ideias e ao noctívago digital Transumância de Notícias.

Foram cerca de quatro meses de aturado trabalho por entre uma floresta cerrada de telegramas e post-its. A nossa tarefa consistiu sobretudo em separar a comunicação despicienda e irrelevante daquela que nos pareceu importante e que, segundo a nossa avaliação, merece ser publicada neste espaço depois da devida correcção das imprecisões de facto e da necessária contextualização. Agora que estou a chegar ao cume deste trabalho homérico (se não mesmo ciclópico e quiçá hercúleo) posso escrever, com a escrita desafogada pela vista que contemplo aqui de cima, que a ingerência da embaixada dos EUA no quotidiano dos Nanikos FC é, sem mácula de dúvida, assustadora. O nível de detalhe das informações que os sucessivos embaixadores americanos obtiveram ao longo dos últimos anos sobre cada um dos elementos do clube, obrigará a direcção a rever a sua estratégia de comunicação para não voltar a ser inconscientemente manipulada pelas teias omniscientes, omnipotentes, omnívoras e omnipresentes do Tio Sam.

A informação que doravante começaremos a publicar foi submetida a regras bastante rígidas. Todos os visados nos telegramas foram previamente contactados para que nenhuma questão de segurança fosse posta em causa: a nossa investigação não pretende fazer perigar a vida de quem quer que seja, mas antes informar e contribuir para o esclarecimento da opinião pública sobre a actividade diplomática da embaixada dos EUA que visou os Nanikos FC.

Estimado leitor, é no seu interesse que publicaremos estes telegramas. Fazêmo-lo com a plena convicção de que o mundo não ficou mais perigoso depois da NanikLeaks, mas mais bem informado.