Domingo, 19 de Junho de 2011

Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

Manifesto

Caros cidadãos,

Há cerca de um ano, o director do Jornal do Fundão, Fernando Paulouro, escreveu o seguinte: "Quem a olha, à noite, da Gardunha, percebe, pelo contraste da iluminação dos pólos urbanos e das comunidades afluentes, a enorme potencialidade da geografia humana que a Cova da Beira, em si mesma, oferece. Estamos face a uma metrópole à nossa dimensão que gravita à volta do concelho da Covilhã (onde avulta a Universidade da Beira Interior) e também dos concelhos do Fundão e Belmonte."

A mestria das suas palavras, irrigadas pelo saber de todos os dias, descreveu com a precisão própria dos diligentes operários das letras aquilo que eu sinto em relação à Cova da Beira e à enorme força que corre nas veias de granito desta gente. Quando contemplo a Rainha da Beira em todo o seu esplendor do alto de um cerro, interrogo-me sempre sobre o que seríamos se uníssemos os nossos esforços e lutássemos como irmãos pelo nosso bem e pelo nosso desenvolvimento.

Acredito profundamente que no dia em que deixarmos de lado a querela inútil e o provincianismo autista que tantas vezes nos têm impedido de olhar para além do nosso bairro, então poderemos sonhar ainda mais alto do que a visão do Fernando Paulouro, porque todos nós veremos desenhar-se com clareza nos nossos olhos não uma "metrópole à nossa dimensão", mas antes uma nação independente à dimensão da nossa vontade e ambição.

Sinto com a mesma intensidade do ressoar dos bombos de Lavacolhos que há cada vez mais conterrâneos meus que sentem o mesmo desejo e a mesma vontade de emancipação de um país, Portugal, que tem sido a canga do nosso atraso. É em nome desse sentimento que parto para a luta pela independência da Cova da Beira. Agora e aqui nesta hora escolhida pela Providência, avanço destemido para uma batalha sem tréguas até que, numa aurora ainda por vir, a bandeira da República Independente da Cova da Beira seja hasteada de Belmonte ao Fundão, de Alpedrinha à Covilhã.

Bem haja.




Quinta-feira, 31 de Março de 2011

NanikLeaks - MC e a luta pela independência da Cova da Beira

O presente telegrama centra-se em MC e na sua luta pela independência da Cova da Beira. Depois do InterRail de 2009, o embaixador norte-americano alertou a cúpula do poder em Washington que o adorador de metal e elemento dos Nanikos FC estava cada vez mais empenhado em iniciar uma guerra sem quartel pela independência da região em relação a Portugal. Como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, Thomas Stephenson foi lesto a evitar que o seu plano fosse avante. Para facilitar a leitura e compreensão, o telegrama foi traduzido para português.

ID: 142126
Date: 2009-09-16 04:58
Origin: 09LISBON433
Source: Embassy Lisbon
Classification: CLASSIFIED
Destination: VZCZCXYZ0000
FM AMEMBASSY LISBON
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC 6632
INFO RUCPDOC/DEPT OF FOREIGN AFFAIRS WASHDC

C L A S LISBON 000433
TAGS: MC, COVA DA BEIRA, INDEPENDENCE; NANIKOS
SUBJECT: MC’S ACTIVISM FOR THE INDEPENCE OF COVA DA BEIRA
REF: STATE 13169 POST/DEPARTMENT
OFFICE: FCS, ODC, Pol/Econ
COUNTRY: Portugal

1. Encravada entre montanhas, cerros e quebradas, a Cova da Beira é um dos locais mais remotos de Portugal Continental. Os seus habitantes, maioritariamente rurais, analfabetos e pobres, desde sempre se conformaram com a sua sorte e com o que a terra lhes dá, não acalentando outras ambições para além da lavoura de sol a sol, do tinto na tasca com os amigos e do dinheiro ao final do mês para pagarem os impostos e encherem o depósito do tractor. Apesar das dificuldades, até há bem pouco tempo ninguém parecia disposto a fazer o que fosse para se libertar da situação de miséria em que se encontra, tal é o hábito de obedecer a todas as ordens, desde as emanadas pelo poder abstracto de São Bento até às do sino, que com as suas badaladas concretas lhes diz quando devem pegar e largar o trabalho, quando devem tomar as refeições e quando é que devem dormir e acordar.

2. Esta mansidão de espírito foi agitada rcentemente com a actividade subversiva de MC, um dos elementos dos Nanikos, que de há alguns anos para cá começou a defender a ideia de tornar a Cova da Beira independente. Foi uma verdadeira pedrada no charco para a região que, qual gato indolente, dormia sob o seu conformismo de fome e rotina. Creio que essa missão utópica com a qual se comprometeu terá germinado após uma viagem ao País Basco. É muito provável que tenha entrado em contacto com células da ETA, que o terão incentivado a seguir o caminho da luta secessionista em Portugal. Inicialmente, tudo não passava de fanfarronice e folclore que, mais não fosse, alegrava os amigos nas pachorrentas noites beirãs.


3. No entanto, desde que regressou do InterRail, a sua ideia ganhou consistência. Segundo as informações recolhidas pelo nosso contacto na Cova da Beira, o senhor *, é agora frequente vê-lo discutir por entre cafés e casas particulares os moldes pelos quais se fará a independência da região. No seio dos Nanikos há quem prefira partir desde já para a luta armada, como o Ucrânia, que defende a necessidade de tomar de assalto os postos da GNR; outros, como é o caso do Bojo, preferem um caminho mais longo, que passará pela sensibilização e consciencialização dos habitantes para a necessidade de se tornarem independentes de Portugal. Divisões à parte, a verdade é que a ideia está a ganhar forma e até já foi delineado a organização administrativa do país por vir. Assim, a Covilhã será a capital do país, por ser a cidade mais desenvolvida e com maior capital humano; o Fundão será a capital administrativa, basicamente funcionando como o escritório burocrático da capital; Belmonte será a capital financeira, devido à sua vasta e próspera comunidade judaica, vista como um verdadeiro Wall Street beirão. Além disso, determinaram que o rio Zêzere será o primeiro curso natural cujas águas não chegarão ao mar, nascendo e morrendo na Cova da Beira graças à construção de enormes barragens; a Soalheira, por sua vez, e apesar de já não fazer parte da região, também se tornará independente com o objectivo exclusivo de produzir energia solar.

4. Sinceramente não sei se o plano irá para a frente, mas é preciso actuar desde já. O MC participou recentemente no programa de estágios profissionais no estrangeiro denominado InovContacto. Depois de várias diligências consegui obter junto da AICEP os resultados que obteve. Foram bastante bons, pelo que não devemos desperdiçar a oportunidade de enviá-lo quanto antes para o estrangeiro para que ocupe o seu espírito com outros assuntos que não a independência da Cova da Beira. Como é formado em informática, tomei a iniciativa de contactar a Cisco em São Francisco e exigi-lhes que fosse integrado nos quadros da empresa, independentemente de haver trabalho ou não. Se levantarem problemas de ordem financeira, creio que o nosso Governo não se importará de lhes pagar o ordenado do MC. De certeza que ele irá ficar contente e rapidamente se esquecerá da Cova da Beira.

5. “Um artista de circo que se deixa aplaudir é já um burguês”, escreveu Jean Genet. Aqui aplica-se a mesma fórmula. Damos-lhe hoje a oportunidade única de trabalhar na maior empresa de informática do mundo a milhares de quilómetros de distância e amanhã ele já não saberá identificar a Cova da Beira no mapa.

Nota 1: O estágio na Cisco deverá começar em Janeiro. Depois voltarei a falar com o presidente para o integrarem em definitivo.

Nota 2: Não sei se receberam o pack de vinho Alcambar que enviei há duas semanas. Em caso afirmativo, não o bebam! Disseram-me que era um vinho de topo da Cova da Beira, mas afinal não passa de uma purga. Sugestão: apliquem-no como método de tortura aos prisioneiros de Guantánamo. Vão ver como é eficaz.

Nota 3: Há em Portugal um cronista social chamado Carlos Castro que na semana passada escreveu um artigo bastante ofensivo na revista ** sobre a indumentária que usei na cerimónia de caracóis e champagne na Embaixada de França. Temos de fazer alguma coisa em relação a esse gajo. Pensem nisso.

Stephenson

* Por questões de segurança, o Jornal O Naniko não revela o nome
** Por questões de higiene, o Jornal O Naniko não revela o nome

Segunda-feira, 28 de Março de 2011

Leitor, lê-nos como se não houvesse letras amanhã

Caro leitor, é com incontida emoção que o Jornal O Naniko está neste momento a largar duas pingas de urina pelas páginas abaixo por voltar a ser lido por ti. Como nos sentimos felizes quando passas os teus bonitos olhos pelas linhas que escrevemos… Sobretudo quando nos lês na diagonal. É uma sensação indescritível. E que saudades tínhamos... Um suor frio galopa neste preciso momento pelos nossos parágrafos acima à medida que a tua íris desliza lascivamente pelos contornos das letras; as vogais ficam todas em pele de galinha; as vírgulas transformam-se em exclamativos pontos de exclamação mesmo que a sintaxe da oração não o justifique!; os pontos finais suspiram por mais; as linhas estendem-se até ao infinito em êxtases emocionados, como esta aqui que continua e continua e continua sem fim à vista, a curtir uma de Saramago, até que chega a um ponto em que tenho de lhe pôr um ponto, de preferência parágrafo, mas não consigo, por isso continuamos ali em baixo, não, ali, inclina um pouco mais a tua cabeça, não, no outro sentido, isso, aí

Quando relês a mesma linha também sabe bem, mas convém não exagerar. As outras frases ficam roídas de inveja e vêm logo com a conversa de que não gostam de fazer parte dos textos que escrevemos, que são mal pagas e que querem emigrar para artigos e blogues onde são grafadas com dedos besuntados de caviar, como o Abrupto. Em retaliação, eu, director, relembro-lhes que anda por aí um novo acordo ortográfico e se necessário for aplico-o de imediato sem direito a discussão. Assustadiças como são, as palavras engolem as suas próprias palavras e vão pregar para outra freguesia. E foi assim que recentemente assinámos um bonito pato de não agressão, não foi pacto? E começámos todos a falar com elevação e correção e não houve mais nenhuma ação e atividades subversivas contra mim, porque mesmo sem enfardar ostras e cadelinhas também sei ser abruto. Estou a brincar, não se vão embora porque ainda temos muito que contar ao nosso estimado leitor que, a esta hora, já deve estar a um clique de se trasladar para o redtube.


É verdade que nos votámos deliberada e conscientemente a um prolongado silêncio, o que de maneira nenhuma deve ser confundido com inacção. Na sombra estivemos a trabalhar para voltarmos a dar vida a esta prístina infusão de ideias, reflexões, mundividências e cidreira, familiarmente chamada blogue dos Nanikos FC. Apenas regressámos agora porque no passado mês de Dezembro a nossa redacção foi contactada por Julian Orange, fundador da organização NanikLeaks, para a publicação de milhares de telegramas confidenciais da embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) em Lisboa sobre o nosso muy nobre e estimado clube. O acervo de documentos para análise, ordenação e publicação revelou-se tão vasto e complexo que este jornal teve de pedir ajuda ao matutino O Bombo de Lavacolhos, ao hebdomadário Regadio de Artes, Letras e Ideias e ao noctívago digital Transumância de Notícias.

Foram cerca de quatro meses de aturado trabalho por entre uma floresta cerrada de telegramas e post-its. A nossa tarefa consistiu sobretudo em separar a comunicação despicienda e irrelevante daquela que nos pareceu importante e que, segundo a nossa avaliação, merece ser publicada neste espaço depois da devida correcção das imprecisões de facto e da necessária contextualização. Agora que estou a chegar ao cume deste trabalho homérico (se não mesmo ciclópico e quiçá hercúleo) posso escrever, com a escrita desafogada pela vista que contemplo aqui de cima, que a ingerência da embaixada dos EUA no quotidiano dos Nanikos FC é, sem mácula de dúvida, assustadora. O nível de detalhe das informações que os sucessivos embaixadores americanos obtiveram ao longo dos últimos anos sobre cada um dos elementos do clube, obrigará a direcção a rever a sua estratégia de comunicação para não voltar a ser inconscientemente manipulada pelas teias omniscientes, omnipotentes, omnívoras e omnipresentes do Tio Sam.

A informação que doravante começaremos a publicar foi submetida a regras bastante rígidas. Todos os visados nos telegramas foram previamente contactados para que nenhuma questão de segurança fosse posta em causa: a nossa investigação não pretende fazer perigar a vida de quem quer que seja, mas antes informar e contribuir para o esclarecimento da opinião pública sobre a actividade diplomática da embaixada dos EUA que visou os Nanikos FC.

Estimado leitor, é no seu interesse que publicaremos estes telegramas. Fazêmo-lo com a plena convicção de que o mundo não ficou mais perigoso depois da NanikLeaks, mas mais bem informado.

Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Os novos Velhos


Mas um velho, de aspecto venerando,
que ficava nas praias, entre a gente,
postos em nós os olhos, meneando
três vezes a cabeça, descontente,
a voz pesada um pouco alevantando,
que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
tais palavras tirou do experto peito:

"Ó glória de mandar, ó vã cobiça
desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
c'ua aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
que crueldades nele experimentas!"

"Dura inquietação da alma e da vida
fonte de desamparos e adultérios,
sagaz consumidora conhecida
de fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
sendo digna de infames vitupérios;
chamam-te Fama e Glória Soberana,
nomes com quem se o povo néscio engana!"

"A que novos desastres determinas
de levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
d' ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?"

"Não tens junto contigo o Ismaelita,
com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
se queres por vitórias ser louvado?"

"Deixas criar às portas o inimigo,
por ires buscar outro de tão longe,
por quem se despovoe o Reino antigo,
se enfraqueça e se vá deitando a longe;
buscas o incerto e incógnito perigo
por que a Fama te exalte e te lisonje
chamando-te senhor, com larga cópia,
da Índia, Pérsia, Arábia e da Etiópia."

"Oh, maldito o primeiro que, no mundo,
nas ondas vela pôs em seco lenho!
Digno da eterna pena do Profundo,
se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
nem cítara sonora ou vivo engenho
te dê por isso fama nem memória,
mas contigo se acabe o nome e glória!"

"Trouxe o filho de Jápeto do Céu
o fogo que ajuntou ao peito humano,
fogo que o mundo em armas acendeu,
em mortes, em desonras (grande engano!).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
e quanto para o mundo menos dano,
que a tua estátua ilustre não tivera
fogo de altos desejos, que a movera!"

"Não cometera o moço miserando
o carro alto do pai, nem o ar vazio
o grande arquitector co filho, dando
um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando
por fogo, ferro, água, calma e frio,
deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte! Estranha condição!"

Luís de Camões, Os Lusíadas Canto IV

Sábado, 13 de Novembro de 2010

A tomada do poder


O rosto da vitória. O sorriso da ambição. O olhar inebriado da utopia. Em Setembro de 2010, o Marechal MC Martinho subiu finalmente a escadaria do poder. Ao entrar na Assembleia Municipal do Fundão, contemplou os frescos no tecto, apreciou os seios republicanos das estátuas que o ladeavam, encheu os pulmões de ar e, em tom solene, citou Nicolae Ceausescu, a sua referência ideológica, às tropas que lhe deram o triunfo: "Apenas reconheço a Assembleia Nacional da Cova da Beira. Apenas falarei perante ela." Depois, levantou o garrafão guardado há vários anos para aquele dia e bebeu três tragos bem audíveis. Seguiu-se uma chuva de aplausos entusiastas dos seus seguidores. Cem anos de História sucumbiam assim a seus pés e uma nova era começava.

Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

Catarina 'Ginjas' (1987-2009)

A garrafa estava ali, à mão de semear. A cor quente, rubi, fascinava-a. Agarrou-a pelo gargalo e ficou a olhar para as bolinhas suspensas pela agitação. Muito devagarinho, abriu-a. Deu um golo a medo. O sabor doce surpreendeu-a. Lambeu os lábios gulosos e de um fôlego só despejou a ginjinha caseira do tio para espanto da família que celebrava mais uma consoada. Como sempre acontece no Fundão, este pequeno apontamento da vida doméstica ganhou asas e viajou por ouvidos e bocas indiscretas. Quando regressou à jovem de 12 anos, trazia a alcunha de Ginjas para viver paredes meias com a Catarina até ao fim da vida. Amen.

Nascida e criada num lar burguês, onde nem sequer faltava o piano de cauda, esse acontecimento foi como o grito de Ipiranga da jovem, cansada que estava dos ditames ditatoriais dos pais que cerceavam as suas liberdades com regras para tudo e nada. Desde tenra idade, foi educada para seguir os passos da mãe, camareira na corte de Alpedrinha. Catarina, no entanto, embriagou o destino à força de ginjas e de todas as bebidas de teor alcóolico que encontrava, primeiro, no bar da sala de estar, e, a partir dos 13 anos, nas tascas pouco recomendáveis da cidade. O seu comportamento boémio fez fama entre bêbados e pedintes, que lhe tentavam sacar alguns cobres nas efusivas noites etílicas, e também entre poetas e apaixonados, que lhe dedicavam pirosos sonetos de amor.

Escandalizados com a estroinice da filha, os progenitores tentaram levá-la à força para o Convento do Fundão, então sob a tutela da Ordem das Sagradas Virgens de Cristo. Mas era tarde de mais. Com a rebeldia da idade a ferver-lhe no sangue, fugiu de casa para não mais voltar. Dos 14 aos 17 anos viveu num quarto mal amanhado na Rua Marquês de Pombal, juntamente com ocupas anárquicos e o respectivo cão. Para se sustentar, saltitou do Galinha Gorda para o Minipreço, passando pelo café Sky, antro de velhos ferroviários e de bêbados imberbes. Ao entardecer, iniciava a demanda pelos trilhos vindimados de Baco, numa viagem que se estendia noite fora entre quelhas e ruelas degradadas. Numa madrugada de neve, com os passos entorpecidos pelo álcool, caiu desamparada na calçada da Rua da Cale. Ironia do destino, foi essa queda que lhe permitiu sair do poço onde se afundava dia após dia. Quiseram as estrelas que o brilhante estudante de informática, Marrusso, passasse por ali a caminho de casa. Ao vê-la estendida, levou-lhe de imediato aos lábios o cantil de bagaço velho que trazia sempre consigo para o aquecer durante o rigoroso Inverno fundanense. De imediato, os olhos de Catarina luziram como dois braseiros.

Do calor do bagaço ao calor da paixão foi um pequeno golo de ginja. Pode-se afirmar sem exagero que Marrusso lhe deu uma segunda vida. Catarina regenerou-se, reconciliou-se com o mundo e regressou à escola. A ideia era concluir os estudos secundários que abandonara e depois seguir para a Universidade. No entanto, a traição de Marrusso com Joana, uma abastada industrial de férteis ambientais, trocou-lhe os planos. Cega de raiva e ciúmes, assaltou um carro e, embrulhada na escuridão da noite, passou a ferro a sua rival, que ficou espalmada como um pacote de leite ao longo da Avenida da Liberdade.

Furioso com a morte da principal financiadora da sua causa, o General revolucionário Bojo Gonzalez exigiu a captura imediata do responsável pela morte de Joana. Certa de que era apenas uma questão de tempo até ser executada, Catarina fugiu para Évora. Foi aí que voltou à escola para concluir os estudos secundários e fazer o curso de arquitectura. Dessa sua estadia de quatro anos no Alentejo pouco se sabe. Os biógrafos inclinam-se para a hipótese de que terá levado uma vida regrada e com poucos relacionamentos fora do ambiente académico.

Terminados os estudos e com o apaziguamento da situação política, Catarina decidiu pôr termo ao seu exílio. Assim que soube do seu regresso, o Marechal MC Martinho fez questão de a receber pessoalmente no seu palácio, em Castelo Novo. Não é difícil perceber a atenção que dispensou à jovem. Na verdade, dera-lhe uma ajuda involuntária ao atropelar a fonte de rendimento de Bojo Gonzalez, com quem sustentava uma guerra sanguinária em virtude das diferenças ideológicas irreconciliáveis que perfilhavam e que queriam implantar na cidade. A empatia que se criou entre ambos, motivou sucessivos encontros em que debatiam sobretudo a reconstrução do Fundão, então uma amálgama de escombros e cinzas.

Em pouco tempo, Catarina tornou-se uma acérrima defensora das políticas ultraliberais e também uma grande admiradora da cultura norte-americana. A sua beleza e ingenuidade agradaram ao astuto MC Martinho, que a elevou a arquitecta oficial do regime. Quando as forças do General Bojo Gonzalez fossem derrotadas, Catarina Ginjas teria a responsabilidade de projectar o novo Fundão à imagem e semelhança dos apetites imperialistas e grandiosos do Marechal. Entusiasmada com o rumo que a sua vida levava, a jovem, então com 21 anos, empenhou-se durante 9 meses na criação de uma maqueta de 10 metros de comprimento por 2 de altura cheia de fontes e fontanários e edifícios ciclópicos. O que mais impressionava na sua obra era a Acrópole, monumento indescritível de mármore branco, que seria construído como homenagem delirante do regime ao grande helenista Vítor Punk. Com as suas colunas dóricas, jónicas e coríntias de 50 metros de altura, dominaria os ares da Cova da Beira; com a sua imponência balofa esmagaria tudo em redor.

A tormenta, no entanto, voltou a abater-se sobre Catarina quando soube da morte (mal explicada) de Emanuel Marrusso, na tarde de 4 de Setembro de 2009. Apesar de não o ver há vários anos, a notícia deixou-a destroçada, lançando-a de novo no caos alcóolico. Pelos documentos entretanto descobertos, sabe-se que o Marechal lhe escreveu várias vezes a pedir-lhe prudência e discrição na sua conduta, preocupado que estava em lançar um ataque furtivo contra as forças do General Bojo Gonzalez. De pouco valeu. Na madrugada de 12 de Setembro, a arquitecta terá entrado em casa completamente ébria e tropeçado na sua maquete. Colunatas, pórticos, cornijas, frisos e brasões desmoronaram-se sobre si, acabando esmagada por um sonho de gesso e contraplacado. Tinha 22 anos e ainda não deixara descendência.

Ainda hoje continua a causar estranheza a forma fria como MC Martinho reagiu à morte de Catarina. A sua atitude tem levado vários biógrafos a sustentar a hipótese de que o Marechal terá dado ordens para a executarem com o intuito de não comprometer o seu ataque militar, do qual ela era conhecedora. No entanto, a verdadeira razão continua por desvendar.

Foi a 13 de Setembro de 2009, debaixo de um ambiente crispado pelo luto e pelo ar belicoso que se respirava na cidade, que Catarina 'Ginjas' foi conduzida à sua última morada. Apesar de tudo e num derradeiro gesto de humanismo, MC Martinho ordenou que o seu corpo fosse enterrado no exacto local onde projectara a construção da Acrópole. Durante três dias, o Fundão chorou em conjunto a partida da mais promissora e brilhante arquitecta que alguma vez vira. Passado o nojo oficial, as bombas começaram a cair.

Se fosse viva, Catarina 'Ginjas' faria hoje 23 anos. O jornal O Naniko não se esquece da tua memória e dedica-te este texto na certeza de que o estás a ler na cidade ideal que um dia criaste. Muitos parabéns, Catarina 'Ginjas'.