terça-feira, 27 de agosto de 2013

Viagem ao mundo da Bundesliga

Tranquei a porta de casa e apontei o azimute para o centro da Europa, rumo ao país que toda a gente ama odiar – a Alemanha. Parti sem mapas, guias turísticos ou brochuras com os dez locais a não perder. Como deve ser, portanto. Prefiro trocar os postais ilustrados pela surpresa e o deleite do que for descobrindo enquanto desmorono imponentes canecas de cerveja e degluto sauerkraut, maultaschen e demais pratos típicos. No entanto, ainda antes de sentir o ar suevo, já tratara do mais importante: a aquisição do bilhete para o jogo Estugarda – Bayer Leverkusen no Mercedes-Benz Arena. Natürlich.


Desdenhado durante anos pela fantasia e tecnicismo latinos, o musculado futebol teutónico vive em estado de graça por estes dias. O atropelamento e fuga do Barcelona e do Real Madrid às mãos do Bayern e Borussia Dortmund, respectivamente, e o subsequente recital de bola que ambos deram em Wembley, na final da Liga dos Campeões, transformaram a Bundesliga na nova Meca de todos os que fazem dos 90 minutos uma liturgia imprescindível para enfrentar mais uma semana de trabalho. A primeira jornada da nova temporada confirmou e reforçou a crença dos milhões de fiéis nas novas virtudes que florescem nos relvados além Reno. Na verdade, foi como encontrar água fresca após atravessar o desértico período estival: 37 golos em nove jogos, média superior a quatro por encontro e resultados tão equilibrados como um empate a três bolas ou tão desnivelados como uma goleada das antigas por 6-1. Impossível não ficar extasiado perante um cartão de visita tão sumptuoso.

Quanto ao Estugarda, a equipa que iria apoiar daí por uma semana, começou a época com uma derrota por 3-2 no land Renânia Palatinado frente ao Mainz 05. Ibisevic e Martin Harnik fizeram os golos da formação orientada por Bruno Labbadia, treinador germânico de 47 anos que vai para a sua quarta época ao leme do clube. Esteve longe de ser o pontapé de saída ideal para os Schwaben, que procuravam no arranque da Bundesliga passar uma esponja sobre a má temporada anterior.

Ao reler as notas que apontei no meu bloco antes voar para a Alemanha, confirmei que a conquista do Deutsche Meisterschale em 2006 / 2007 foi um feito que tão cedo não se repetirá no sudoeste germânico. Bem podem os adeptos do Estugarda guardar em lugar seguro as festivas garrafas de cerveja, porque a equipa não passa de um anão de jardim ao lado dos colossos Bayern e Borussia. Na temporada passada, a equipa terminou em 12º lugar com um dos piores ataques (33 golos) e com uma das piores defesas (55). Registo pouco abonatório, apenas compensado pela presença na final da Taça da Alemanha, na qual não resistiu à locomotiva bávara na sua caminhada para o triplete (derrota por 3-2).


Por ter sido finalista vencido da DFB-Pokal frente ao campeão, o Estugarda iniciou esta temporada mais cedo devido aos soporíferos compromissos da Liga Europa. Quando lhe tocou em sorte o quase desconhecido Botev Plovdiv na terceira ronda de acesso ao play-off da prova, mesmo o adepto mais pessimista esperaria duas vitórias tranquilas. A equipa, contudo, restringiu-se aos serviços mínimos, passando graças a um empate forasteiro a uma bola, enquanto que em casa segurou o nulo. Resultados mais austeros eram impossíveis. Convenhamos que é um pecúlio medíocre para quem faz parte da toda poderosa Bundesliga. Já na Taça da Alemanha, a formação sueva bateu fora o Berliner FC Dynamo, da quinta divisão, graças a um bis de Ibisevic. Em suma, é com o pobre registo de uma vitória, dois empates e uma derrota que vou travar conhecimento na primeira pessoa com o conjunto de Baden-Württemberg, naquela que é a minha estreia absoluta na elite do futebol alemão.

O dia 17 de Agosto chega por fim e, para cúmulo, não me encontro nas melhores condições físicas. Por razões ainda por apurar (excesso de cerveja?), os meus intestinos tornaram-se numa imensa via verde onde a fluência do meu trânsito escatológico consegue ser superior ao trânsito motorizado na inóspita A23. Depois de uma noite difícil, a manhã desfez-se penosamente até que, gradualmente, começo a sentir-me melhor. Na minha carteira, e da minha fräulein, já reluzem os bilhetes do jogo que chegaram na véspera por correio. Quando abrimos o envelope, descobrimos que temos direito a utilizar gratuitamente os transportes públicos para irmos para o estádio e para regressarmos. É a organização alemã, e em específico da Bundesliga, a funcionar diante dos nossos olhos. Por estas e outras razões, os estádios germânicos apresentam as maiores enchentes na Europa. Outro aspecto a destacar é o preço do bilhete: pagámos 26€ cada, valor que está longe de ser elevado, sobretudo se considerarmos os ordenados que se pagam aqui comparativamente com Portugal. (Nestes momentos em que me fascino com algum aspecto da eficiente engrenagem teutónica, lembro-me sempre da resposta que o MC me deu no InterRail de 2009 quando saímos da Alsácia rumo a Berlim e gabei o comboio alemão em que íamos pela sua qualidade e luxo: “Mas era disto mesmo que eu estava à espera. Por alguma razão a Alemanha é o país mais avançado da Europa.” É provável que depois tenha rematado a sua observação com alguma invectiva à França e aos franceses, mas confesso que não me recordo.)


Aproveitando uma trégua momentânea dos meus intestinos, vou com a minha fräulein até ao Flohmarkt (feira ao ar livre) na Karlsplatz. Quando íamos a meio caminho, na ponte que dá para o Schlossgarten, cruzámo-nos com a equipa do Bayer Leverkusen que dava o seu passeio da manhã. Pareceu-me ver o Kiessling (já me cruzara com ele num jogo frente ao Leiria há alguns anos), enquanto que os outros eram simples anónimos para mim. Ainda pensei em gritar “Benfica!”, lembrando-lhes a eliminatória da Liga Europa do ano anterior, no entanto, o bom senso e o meu estado enfermiço não mo permitiram.

A hora do jogo aproxima-se. Apesar das nuvens ameaçadoras que se acastelam no horizonte e do vento que se levantou, parece que o sol vai brilhar. O apito inicial está marcado para as 15h30m, o que é mais uma diferença em relação a Portugal (e, já agora, a Espanha), onde reina o futebol à luz do holofote. Saímos de casa com tempo e apanhamos o metro em direcção às margens do tranquilo rio Neckar, na zona de Bad Canstatt, onde fica o Mercedes-Benz Arena, além do moderno e imponente museu da marca automóvel (vale bem a pena dar os oito euros para o visitar). A este propósito, refira-se que Baden-Württemberg é uma das zonas mais ricas da Alemanha, com a menor taxa de desemprego do país e sede de várias empresas mundialmente famosas (Mercedes-Benz, Porsche, Bosch…), as quais foram decisivas para o tão falado milagre económico após o final da II Guerra Mundial. Outra curiosidade: esta é a única província da Alemanha que produz vinho, pelo que as verdejantes vinhas proliferam quer pelas colinas em torno da cidade quer no centro. É de longe a região do país com o maior consumo per capita do néctar dos deuses, dando razão de ser à questão pertinente de Friedrich Schiller em 1782: “Ein Wirtemberger ohne Wein kann der ein Wirtemberger sein?” (“Um Wirtemberger sem vinho pode ser um Wirtemberger?”). No entanto, da minha experiência, os vinhos portugueses são bem melhores do que os produzidos nesta zona.


Quando saímos do metro, tenho a sensação de estar num cortejo silencioso de camisolas vermelhas e brancas. Um vasto rio humano, que gradualmente vai engrossando, dirige-se calmamente para o estádio. Não há passos apressados, nem gritos ou cânticos, sendo difícil perceber a excitação e a expectativa contagiante que normalmente antecedem os jogos de futebol. Enfim, formas diferentes de sentir em relação aos latinos, quase sempre mais esfusiantes e expansivos. Olhamos novamente para o verso do bilhete, onde temos a configuração do estádio com as quatro bancadas identificadas, pelo que não é difícil orientarmo-nos até à entrada mais próxima dos nossos lugares.

Já estamos dentro do recinto do Mercedes-Benz Arena, que refulge com a sua pala branca ao sol. Devido às sucessivas remodelações de que tem sido alvo, não aparenta em nada a idade que tem, exalando modernidade, com espaços amplos em redor. Por essa razão, nunca há a sensação de aperto apesar da multidão que se aglomera à sua volta. A título de curiosidade, refira-se que o estádio foi desenhado pelo arquitecto Paul Bonatz e mudou várias vezes de nome ao longo da História, tendo sido originalmente baptizado de Adolf-Hitler-Kampfbahn, aquando da sua fundação em 1933. Após a II Guerra Mundial, as tropas americanas utilizaram-no para jogar baseball, tendo-se chamado posteriormente Neckarstadion e mais tarde Gottlieb-Daimler-Stadion, em homenagem ao criador da Daimler e pioneiro no desenvolvimento do automóvel tal como o conhecemos nos nossos dias.  


Finalmente ouço dois adeptos cantarem nas imediações do estádio por breves segundos. O meu alemão (suevo?), contudo, não é suficientemente bom para percebê-los, mas trata-se de uma rima com a palavra Bayer Leverkusen. É provável que não estejam a desejar-lhes umas boas férias de Verão. Entramos dentro da Mercedes-Benz Arena com as suas bancadas totalmente vermelhas. Trata-se de um estádio elegante e apesar de ter capacidade para 60 mil pessoas nos jogos da Bundesliga, não me parece tão imponente como o Estádio da Luz. Vamos ficar num dos topos, na Cannstatter Kurve, bem ao lado da claque do Estugarda que vê o jogo todo de pé, uma vez que onde estão não há cadeiras. Este foi um facto que me surpreendeu na altura em que comprámos os bilhetes pela internet: afinal ainda existem os famosos terraces na Europa do futebol, os quais deram fama mundial aos adeptos e bancadas de tantos clubes, caso do Kop em Anfield Road. No entanto, por imposição da UEFA, não podem ser utilizados nas competições europeias, pelo que a capacidade diminui para 54 mil lugares.

Magotes de adeptos munidos de cachecol, camisola do clube e a imprescindível cerveja, aqui servida em copos de plástico de meio litro, vão preenchendo os seus lugares. Trata-se de uma outra novidade para mim: nos estádios alemães pode-se beber sem qualquer problema. Seria aliás uma blasfémia que se vendesse apenas cervejas sem álcool nos länder germânicos, onde a bebida é produzida com inigualável mestria. E a verdade é que, mesmo inundados em cevada, todos se comportam de forma civilizada, demonstrando um respeito pelos outros e pelo espaço público tão natural que é difícil de pôr em palavras. A este propósito, deve confessar que achei os alemães desta zona bastante simpáticos. Meteram conversa connosco no metro, no supermercado e, quando me viram abrir o mapa no meio da cidade, houve uma pessoa que veio ter comigo e que perguntou se precisava de ajuda. Sinceramente, só a ignorância é que nos faz continuar a alimentar tantos preconceitos em relação à Alemanha e aos seus habitantes. Actualmente deverá ser dos países mais multiculturais da Europa. Dois factos lidos num guia sustentam a afirmação anterior: os emigrantes constituem um terço da população de Estugarda devido, em grande medida, ao facto de ser uma zona de forte pendor industrial e Hamburgo é a cidade com mais mesquitas na Europa.


A voz viva e entusiasmada do speaker faz a apresentação dos novos reforços do clube. Vejo os nomes no painel electrónico e identifico-os na revista alusiva ao jogo que é distribuída à entrada do estádio. É um auxiliar precioso para quem não conhece a grande maioria dos jogadores, como é o nosso caso. Tem a cara, a posição e o número de todos os futebolistas do Estugarda e do Bayer Leverkusen e também as fichas de jogo dos encontros mais recentes dos Schwaben. E quanto ao histórico dos últimos confrontos com o adversário da Renânia do Norte-Vestefália? Também tem, além de uma reportagem sobre um jogo marcante entre ambos. Trata-se de uma publicação feita a pensar nos adeptos, ajudando-os a desfrutar melhor da partida. Além disso, é mais um pequeno exemplo que explica o crescimento da Bundesliga nos últimos anos, a qual atrai não apenas homens, mas também bastantes mulheres e crianças como posso ver à minha volta.

Em fila indiana, lado a lado, as duas equipas saem do túnel em direcção ao relvado impecável ao som de uma música que dá uma forte carga épica ao momento. Em simultâneo, o speaker anuncia os jogadores da casa um a um, dizendo apenas o primeiro nome, enquanto o público grita em êxtase o seu apelido. Os cachecóis vermelhos e brancos redemoinham em uníssono e as bandeiras altas com as mesmas cores ondulam na Cannstater Kurve. No meio há uma de cor amarelo vivo com o símbolo da cidade estampado  - um cavalo negro com as patas dianteiras levantadas. O resto do estádio aplaude de pé a estreia do Estugarda em jogos do campeonato no Mercedes-Benz Arena. Um ambiente eléctrico, de excitação, de expectativa nervosa, percorre as bancadas. Provavelmente deverá haver alguma semelhança entre isto e os momentos que antecediam as grandes batalhas, quando rufavam os tambores dos exércitos beligerantes, dispostos frente a frente. Canta-se entusiasticamente ao meu lado e agora os adeptos da claque esticam os braços, alinhados numa coreografia, seguindo as indicações do líder que se senta de costas para o relvado num banco mais elevado e grita palavras de incentivo por um megafone. Ao vê-los, e talvez por estar na Alemanha, vêm-me por momentos à cabeça épocas sombrias da História. Afasto de imediato esses pensamentos e concentro-me no jogo que acaba de começar.


Apenas com dois minutos decorridos, o eterno Kiessling quase faz o golo 100 pelo Bayer Leverkusen, ao desviar um remate frouxo de um colega seu à entrada da área. O seu intento, no entanto, foi travado pelos reflexos do guarda-redes Sven Ulreich que defendeu com a perna. O público aplaude a intervenção, tentando desta forma sacudir o nervosismo provocado pela entrada desastrada da equipa. O Estugarda procura atacar, mas rapidamente percebo que o seu futebol é falho de ideias e criatividade.

Nos primeiros minutos, o jogo passou por alguma indefinição, com demasiados passes errados, o que levou a minha fräulein a fazer a seguinte observação: “Estou a assistir a um jogo da III Divisão ou da Bundesliga?” Num assomo de brio, a formação de Bruno Labbadia empertigou-se e, numa excelente jogada pela direita, Ibrahima Traore apareceu já dentro da área com tempo e espaço suficiente para marcar. O estádio levanta-se como uma onda que cresce antes de rebentar ruidosamente. É impossível falhar, vai ser golo… mas o remate sai lado para frustração dos 40 mil espectadores que quase lotam o Mercedes-Benz Arena. Erguem-se os braços como apontassem para o céu, clamando por uma intervenção divina; põem-se as mãos na cabeça; ouvem-se urros de impotência; sentamo-nos resignados e a claque volta a entoar cânticos de apoio. Ainda inconformado, um adepto que está na fila imediatamente a seguir à minha vira-se para trás e diz algo como “tinha a baliza à sua frente, como é que é possível!?” Lá atrás, a defesa sueva continua a demonstrar que tem a consistência de um apfelstrudel ao sol e, se não fosse o poste, o Bayer Leverkusen já estaria em vantagem, após remate, dentro da área, de Sydnei Sam.


O jogo prossegue em toada morna. Na bancada, os incansáveis adeptos da Cannstater Kurve cantam repetidamente algo como “Schiessen am Tor” (“Chutem à baliza") ou VFB (que em alemão é "FAU FB"). O Estugarda, contudo, não corresponde dentro de campo e Kiessling volta a estar perto de marcar num remate por cima. Sem ideias, o futebol ofensivo da equipa de Labbadia é presa fácil para a defesa forasteira. Arthur Boka, responsável pela primeira fase de construção de jogo, é incapaz de soltar um pingo de criatividade das suas botas, limitando-se a fazer passes longos para as laterais, quando não para fora. Tirando algumas incursões voluntariosas de Ibrahima Traore, não há um rasgo, um desequilíbrio, um lampejo inesperado de génio que ilumine o breu de ideias do conjunto de Baden-Württemberg. Lá à frente, Ibisevic, avançado que fez fama no Hoffenheim e que tinha curiosidade em ver jogar, faz-se notar pela ausência. Nenhuma bola lhe chega em condições. O Bayer Leverkusen continua a ameaçar, com os seus ataques a serem conduzidos pelo sul-coreano Son (bom toque de bola) e por Sam. Até que perto do intervalo surgiu o inevitável. A defesa do Estugarda foi ultrapassada, Boenisch ganhou a linha de fundo no lado esquerdo do ataque e cruzou rasteiro para o corte de Schwaab na direcção da própria baliza. Pouco depois, terminou a primeira parte para desânimo dos adeptos locais, desencantados por um desempenho tão pobre dos Schwaben.

Ao intervalo, dei vazão aos meus incansáveis intestinos e constatei que as casas de banho do estádio do Estugarda fazem inveja às que existem em muitas pastelarias em Portugal em termos de asseio. Não há um único gatafunho nem frases filosóficas sobre a mui nobre arte de defecar nas portas, acreditam? Pois acreditem, assim como havia papel higiénico, papel para as mãos e sabão, o que tantas vezes falta em muitos estabelecimentos comerciais do nosso país.


Com os copos de cerveja atestados, os adeptos partiram para a segunda parte com a esperança de ver, por fim, bom futebol. Labbadia deixou nos balneários o inconsequente Arthur Boka e Konstantin Rausch e fez entrar o internacional alemão Cacau e Timo Werner. No entanto, para desânimo geral, o Bayer Leverkusen voltou a entrar melhor, estando mais perto do golo em várias situações.

Com o passar dos minutos, os forasteiros começaram a recuar cada vez mais no terreno com o intuito de segurar a vantagem e o Estugarda aproveitou o convite para se acercar da baliza de Bernd Leno. As incursões de Cacau galvanizavam o público, mas a má qualidade dos passes e dos cruzamentos (quase sempre demasiado largos), facilitavam o trabalho do adversário. Em contra-ataque, o conjunto do finlandês Sami Hyppiä podia ter resolvido o jogo, mas Kiessling foi displicente ao demorar tanto tempo, permitindo o corte da defesa quando estava em boa posição para marcar.

Sempre com o coração, o futebol sem ideias dos Schwaben lá ia tentando furar a defesa dos Werkself. O remate de longe de Christian Gentner passou a milímetros da barra para desespero da Cannstatter Kurve que, frustrada, fazia esvoaçar copos de cerveja contra a rede de protecção. Numa jogada confusa dentro da área, o fantasma de Ibisevic quase desceu à terra, mas a bola acabou por ser rechaçada e, já em desespero, Timo Werner rematou rasteiro junto ao poste, mas o guarda-redes Bernd Leno defendeu para canto. Foi o canto do cisne, um cisne bem tosco e sem criatividade, por sinal, que acabou derrotado por um adversário que criou oportunidades suficientes para evitar o sofrimento por que passou no último quarto de hora.


No final, o guarda-redes Bernd Leno, bastante contestado por perder tempo nos pontapés de baliza (valeu-lhe um amarelo), provocou a turba ruidosa da Cannstatter Kurve, o que originou um tête-à-tête com Ibrahima Traore, ao qual acorreram de pronto os jogadores das duas equipas. Na bancada voavam copos de cerveja, revistas e insultava-se o guardião do Bayer Leverkusen.

Sanadas as escaramuças, os jogadores do Estugarda agradeceram o apoio incansável dos adeptos que retribuíram com uma ovação, apesar da exibição fraca a que tinham assistido. Foram sem dúvida o décimo segundo elemento em campo e mereciam uma equipa que praticasse um futebol mais agradável. A continuar assim, os Schwaben vão voltar a sofrer bastante na luta pela sobrevivência na Bundesliga. Quanto à Liga Europa, dificilmente passarão da fase de grupos.


Saímos do estádio sem qualquer tipo de problemas e dirigimo-nos para a estação. Apesar da derrota, os adeptos falavam animadamente sobre o jogo. Dois metros tinham acabado de sair e um minuto depois chegaram outros dois, vazios. Entrámos e fizemos a viagem sentados, sem nunca nos sentirmos apertados e sem qualquer tipo de atropelos, deixando bem patente o civismo exemplar de toda a gente. Assim vale a pena ir ao futebol, mesmo quando o jogo deixa a desejar como foi, infelizmente, o caso. De qualquer modo, aqui onde estou, na companhia de uma excelente cerveja de trigo alemã, aproveito para fazer um brinde à Bundesliga e ao meio século de vida comemorado este ano. Prost!


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Homem para além do Homem

Tiago Bobfit Afonso, a promessa do Homem para além do Homem. Tiago Bobfit Afonso, o encontro do Homem com o Divino. Tiago Bobfit Afonso, o ser que rasgou as cordilheiras físicas para erguer abóbadas celestiais.  Tiago Bobfit Afonso, a ausência de impossíveis. Tiago Bobfit Afonso, a ressurreição do Hércules dos doze trabalhos. Tiago Bobfit Afonso, o sopro da mitologia clássica. Tiago Bobfit Afonso,  a aspiração supra-terrena do dia sem noite, da vida sem morte. 


Em cada músculo latejante, veia intumescida, abdominal retesado, pérola de suor, esgar de dor, há uma promessa do divino, o fulgir da transcendência, o desenrolar da carpete metafísica dos deuses que nos aguardam do lado de lá da porta. Quando a noite cai na Cova da Beira e as pessoas recolhem ao sossego dos lares, ele sobe aos cumes mais altos, ergue as pedras mais pesadas, arranca as árvores mais viçosas e enfrenta as bestas mais brutais. Saciado de tantas façanhas, aspira o frio crepuscular  em longas golfadas  e liberta o seu bramido atroador que reverbera pelas quebradas serranas e destrói todas as fundações e comodismos onde o Homem deixou engordar a sua Vontade de ser mais, a sua Vontade de conquista, a sua Vontade de poder. Depois, ergue o cálice da sua força ciclópica às estrelas lucilantes e, insatisfeito com a sua vitória sobre o mundo físico, demasiado físico, aventura-se pelas montanhas que se erguem acima dos limites humanos, pelos desafios mais transcendentes e pelas conquistas intemporais que encontra dentro da sua ousadia, do seu desejo indómito de ir mais além, de abraçar a imortalidade e de saborear a ambrósia divina num faustoso bródio ao lado de Zeus.

Não tenham dúvidas. Tiago Bobfit Afonso é a derradeira hybris do Homem lançada aos deuses. 

domingo, 19 de junho de 2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

NanikLeaks - MC e a luta pela independência da Cova da Beira

O presente telegrama centra-se em MC e na sua luta pela independência da Cova da Beira. Depois do InterRail de 2009, o embaixador norte-americano alertou a cúpula do poder em Washington que o adorador de metal e elemento dos Nanikos FC estava cada vez mais empenhado em iniciar uma guerra sem quartel pela independência da região em relação a Portugal. Como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, Thomas Stephenson foi lesto a evitar que o seu plano fosse avante. Para facilitar a leitura e compreensão, o telegrama foi traduzido para português.

ID: 142126
Date: 2009-09-16 04:58
Origin: 09LISBON433
Source: Embassy Lisbon
Classification: CLASSIFIED
Destination: VZCZCXYZ0000
FM AMEMBASSY LISBON
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC 6632
INFO RUCPDOC/DEPT OF FOREIGN AFFAIRS WASHDC

C L A S LISBON 000433
TAGS: MC, COVA DA BEIRA, INDEPENDENCE; NANIKOS
SUBJECT: MC’S ACTIVISM FOR THE INDEPENCE OF COVA DA BEIRA
REF: STATE 13169 POST/DEPARTMENT
OFFICE: FCS, ODC, Pol/Econ
COUNTRY: Portugal

1. Encravada entre montanhas, cerros e quebradas, a Cova da Beira é um dos locais mais remotos de Portugal Continental. Os seus habitantes, maioritariamente rurais, analfabetos e pobres, desde sempre se conformaram com a sua sorte e com o que a terra lhes dá, não acalentando outras ambições para além da lavoura de sol a sol, do tinto na tasca com os amigos e do dinheiro ao final do mês para pagarem os impostos e encherem o depósito do tractor. Apesar das dificuldades, até há bem pouco tempo ninguém parecia disposto a fazer o que fosse para se libertar da situação de miséria em que se encontra, tal é o hábito de obedecer a todas as ordens, desde as emanadas pelo poder abstracto de São Bento até às do sino, que com as suas badaladas concretas lhes diz quando devem pegar e largar o trabalho, quando devem tomar as refeições e quando é que devem dormir e acordar.

2. Esta mansidão de espírito foi agitada rcentemente com a actividade subversiva de MC, um dos elementos dos Nanikos, que de há alguns anos para cá começou a defender a ideia de tornar a Cova da Beira independente. Foi uma verdadeira pedrada no charco para a região que, qual gato indolente, dormia sob o seu conformismo de fome e rotina. Creio que essa missão utópica com a qual se comprometeu terá germinado após uma viagem ao País Basco. É muito provável que tenha entrado em contacto com células da ETA, que o terão incentivado a seguir o caminho da luta secessionista em Portugal. Inicialmente, tudo não passava de fanfarronice e folclore que, mais não fosse, alegrava os amigos nas pachorrentas noites beirãs.


3. No entanto, desde que regressou do InterRail, a sua ideia ganhou consistência. Segundo as informações recolhidas pelo nosso contacto na Cova da Beira, o senhor *, é agora frequente vê-lo discutir por entre cafés e casas particulares os moldes pelos quais se fará a independência da região. No seio dos Nanikos há quem prefira partir desde já para a luta armada, como o Ucrânia, que defende a necessidade de tomar de assalto os postos da GNR; outros, como é o caso do Bojo, preferem um caminho mais longo, que passará pela sensibilização e consciencialização dos habitantes para a necessidade de se tornarem independentes de Portugal. Divisões à parte, a verdade é que a ideia está a ganhar forma e até já foi delineado a organização administrativa do país por vir. Assim, a Covilhã será a capital do país, por ser a cidade mais desenvolvida e com maior capital humano; o Fundão será a capital administrativa, basicamente funcionando como o escritório burocrático da capital; Belmonte será a capital financeira, devido à sua vasta e próspera comunidade judaica, vista como um verdadeiro Wall Street beirão. Além disso, determinaram que o rio Zêzere será o primeiro curso natural cujas águas não chegarão ao mar, nascendo e morrendo na Cova da Beira graças à construção de enormes barragens; a Soalheira, por sua vez, e apesar de já não fazer parte da região, também se tornará independente com o objectivo exclusivo de produzir energia solar.

4. Sinceramente não sei se o plano irá para a frente, mas é preciso actuar desde já. O MC participou recentemente no programa de estágios profissionais no estrangeiro denominado InovContacto. Depois de várias diligências consegui obter junto da AICEP os resultados que obteve. Foram bastante bons, pelo que não devemos desperdiçar a oportunidade de enviá-lo quanto antes para o estrangeiro para que ocupe o seu espírito com outros assuntos que não a independência da Cova da Beira. Como é formado em informática, tomei a iniciativa de contactar a Cisco em São Francisco e exigi-lhes que fosse integrado nos quadros da empresa, independentemente de haver trabalho ou não. Se levantarem problemas de ordem financeira, creio que o nosso Governo não se importará de lhes pagar o ordenado do MC. De certeza que ele irá ficar contente e rapidamente se esquecerá da Cova da Beira.

5. “Um artista de circo que se deixa aplaudir é já um burguês”, escreveu Jean Genet. Aqui aplica-se a mesma fórmula. Damos-lhe hoje a oportunidade única de trabalhar na maior empresa de informática do mundo a milhares de quilómetros de distância e amanhã ele já não saberá identificar a Cova da Beira no mapa.

Nota 1: O estágio na Cisco deverá começar em Janeiro. Depois voltarei a falar com o presidente para o integrarem em definitivo.

Nota 2: Não sei se receberam o pack de vinho Alcambar que enviei há duas semanas. Em caso afirmativo, não o bebam! Disseram-me que era um vinho de topo da Cova da Beira, mas afinal não passa de uma purga. Sugestão: apliquem-no como método de tortura aos prisioneiros de Guantánamo. Vão ver como é eficaz.

Nota 3: Há em Portugal um cronista social chamado Carlos Castro que na semana passada escreveu um artigo bastante ofensivo na revista ** sobre a indumentária que usei na cerimónia de caracóis e champagne na Embaixada de França. Temos de fazer alguma coisa em relação a esse gajo. Pensem nisso.

Stephenson

* Por questões de segurança, o Jornal O Naniko não revela o nome
** Por questões de higiene, o Jornal O Naniko não revela o nome

segunda-feira, 28 de março de 2011

Leitor, lê-nos como se não houvesse letras amanhã

Caro leitor, é com incontida emoção que o Jornal O Naniko está neste momento a largar duas pingas de urina pelas páginas abaixo por voltar a ser lido por ti. Como nos sentimos felizes quando passas os teus bonitos olhos pelas linhas que escrevemos… Sobretudo quando nos lês na diagonal. É uma sensação indescritível. E que saudades tínhamos... Um suor frio galopa neste preciso momento pelos nossos parágrafos acima à medida que a tua íris desliza lascivamente pelos contornos das letras; as vogais ficam todas em pele de galinha; as vírgulas transformam-se em exclamativos pontos de exclamação mesmo que a sintaxe da oração não o justifique!; os pontos finais suspiram por mais; as linhas estendem-se até ao infinito em êxtases emocionados, como esta aqui que continua e continua e continua sem fim à vista, a curtir uma de Saramago, até que chega a um ponto em que tenho de lhe pôr um ponto, de preferência parágrafo, mas não consigo, por isso continuamos ali em baixo, não, ali, inclina um pouco mais a tua cabeça, não, no outro sentido, isso, aí

Quando relês a mesma linha também sabe bem, mas convém não exagerar. As outras frases ficam roídas de inveja e vêm logo com a conversa de que não gostam de fazer parte dos textos que escrevemos, que são mal pagas e que querem emigrar para artigos e blogues onde são grafadas com dedos besuntados de caviar, como o Abrupto. Em retaliação, eu, director, relembro-lhes que anda por aí um novo acordo ortográfico e se necessário for aplico-o de imediato sem direito a discussão. Assustadiças como são, as palavras engolem as suas próprias palavras e vão pregar para outra freguesia. E foi assim que recentemente assinámos um bonito pato de não agressão, não foi pacto? E começámos todos a falar com elevação e correção e não houve mais nenhuma ação e atividades subversivas contra mim, porque mesmo sem enfardar ostras e cadelinhas também sei ser abruto. Estou a brincar, não se vão embora porque ainda temos muito que contar ao nosso estimado leitor que, a esta hora, já deve estar a um clique de se trasladar para o redtube.


É verdade que nos votámos deliberada e conscientemente a um prolongado silêncio, o que de maneira nenhuma deve ser confundido com inacção. Na sombra estivemos a trabalhar para voltarmos a dar vida a esta prístina infusão de ideias, reflexões, mundividências e cidreira, familiarmente chamada blogue dos Nanikos FC. Apenas regressámos agora porque no passado mês de Dezembro a nossa redacção foi contactada por Julian Orange, fundador da organização NanikLeaks, para a publicação de milhares de telegramas confidenciais da embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) em Lisboa sobre o nosso muy nobre e estimado clube. O acervo de documentos para análise, ordenação e publicação revelou-se tão vasto e complexo que este jornal teve de pedir ajuda ao matutino O Bombo de Lavacolhos, ao hebdomadário Regadio de Artes, Letras e Ideias e ao noctívago digital Transumância de Notícias.

Foram cerca de quatro meses de aturado trabalho por entre uma floresta cerrada de telegramas e post-its. A nossa tarefa consistiu sobretudo em separar a comunicação despicienda e irrelevante daquela que nos pareceu importante e que, segundo a nossa avaliação, merece ser publicada neste espaço depois da devida correcção das imprecisões de facto e da necessária contextualização. Agora que estou a chegar ao cume deste trabalho homérico (se não mesmo ciclópico e quiçá hercúleo) posso escrever, com a escrita desafogada pela vista que contemplo aqui de cima, que a ingerência da embaixada dos EUA no quotidiano dos Nanikos FC é, sem mácula de dúvida, assustadora. O nível de detalhe das informações que os sucessivos embaixadores americanos obtiveram ao longo dos últimos anos sobre cada um dos elementos do clube, obrigará a direcção a rever a sua estratégia de comunicação para não voltar a ser inconscientemente manipulada pelas teias omniscientes, omnipotentes, omnívoras e omnipresentes do Tio Sam.

A informação que doravante começaremos a publicar foi submetida a regras bastante rígidas. Todos os visados nos telegramas foram previamente contactados para que nenhuma questão de segurança fosse posta em causa: a nossa investigação não pretende fazer perigar a vida de quem quer que seja, mas antes informar e contribuir para o esclarecimento da opinião pública sobre a actividade diplomática da embaixada dos EUA que visou os Nanikos FC.

Estimado leitor, é no seu interesse que publicaremos estes telegramas. Fazêmo-lo com a plena convicção de que o mundo não ficou mais perigoso depois da NanikLeaks, mas mais bem informado.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os novos Velhos


Mas um velho, de aspecto venerando,
que ficava nas praias, entre a gente,
postos em nós os olhos, meneando
três vezes a cabeça, descontente,
a voz pesada um pouco alevantando,
que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
tais palavras tirou do experto peito:

"Ó glória de mandar, ó vã cobiça
desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
c'ua aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
que crueldades nele experimentas!"

"Dura inquietação da alma e da vida
fonte de desamparos e adultérios,
sagaz consumidora conhecida
de fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
sendo digna de infames vitupérios;
chamam-te Fama e Glória Soberana,
nomes com quem se o povo néscio engana!"

"A que novos desastres determinas
de levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
d' ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?"

"Não tens junto contigo o Ismaelita,
com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
se queres por vitórias ser louvado?"

"Deixas criar às portas o inimigo,
por ires buscar outro de tão longe,
por quem se despovoe o Reino antigo,
se enfraqueça e se vá deitando a longe;
buscas o incerto e incógnito perigo
por que a Fama te exalte e te lisonje
chamando-te senhor, com larga cópia,
da Índia, Pérsia, Arábia e da Etiópia."

"Oh, maldito o primeiro que, no mundo,
nas ondas vela pôs em seco lenho!
Digno da eterna pena do Profundo,
se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
nem cítara sonora ou vivo engenho
te dê por isso fama nem memória,
mas contigo se acabe o nome e glória!"

"Trouxe o filho de Jápeto do Céu
o fogo que ajuntou ao peito humano,
fogo que o mundo em armas acendeu,
em mortes, em desonras (grande engano!).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
e quanto para o mundo menos dano,
que a tua estátua ilustre não tivera
fogo de altos desejos, que a movera!"

"Não cometera o moço miserando
o carro alto do pai, nem o ar vazio
o grande arquitector co filho, dando
um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando
por fogo, ferro, água, calma e frio,
deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte! Estranha condição!"

Luís de Camões, Os Lusíadas Canto IV

sábado, 13 de novembro de 2010

A tomada do poder


O rosto da vitória. O sorriso da ambição. O olhar inebriado da utopia. Em Setembro de 2010, o Marechal MC Martinho subiu finalmente a escadaria do poder. Ao entrar na Assembleia Municipal do Fundão, contemplou os frescos no tecto, apreciou os seios republicanos das estátuas que o ladeavam, encheu os pulmões de ar e, em tom solene, citou Nicolae Ceausescu, a sua referência ideológica, às tropas que lhe deram o triunfo: "Apenas reconheço a Assembleia Nacional da Cova da Beira. Apenas falarei perante ela." Depois, levantou o garrafão guardado há vários anos para aquele dia e bebeu três tragos bem audíveis. Seguiu-se uma chuva de aplausos entusiastas dos seus seguidores. Cem anos de História sucumbiam assim a seus pés e uma nova era começava.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Catarina 'Ginjas' (1987-2009)

A garrafa estava ali, à mão de semear. A cor quente, rubi, fascinava-a. Agarrou-a pelo gargalo e ficou a olhar para as bolinhas suspensas pela agitação. Muito devagarinho, abriu-a. Deu um golo a medo. O sabor doce surpreendeu-a. Lambeu os lábios gulosos e de um fôlego só despejou a ginjinha caseira do tio para espanto da família que celebrava mais uma consoada. Como sempre acontece no Fundão, este pequeno apontamento da vida doméstica ganhou asas e viajou por ouvidos e bocas indiscretas. Quando regressou à jovem de 12 anos, trazia a alcunha de Ginjas para viver paredes meias com a Catarina até ao fim da vida. Amen.

Nascida e criada num lar burguês, onde nem sequer faltava o piano de cauda, esse acontecimento foi como o grito de Ipiranga da jovem, cansada que estava dos ditames ditatoriais dos pais que cerceavam as suas liberdades com regras para tudo e nada. Desde tenra idade, foi educada para seguir os passos da mãe, camareira na corte de Alpedrinha. Catarina, no entanto, embriagou o destino à força de ginjas e de todas as bebidas de teor alcóolico que encontrava, primeiro, no bar da sala de estar, e, a partir dos 13 anos, nas tascas pouco recomendáveis da cidade. O seu comportamento boémio fez fama entre bêbados e pedintes, que lhe tentavam sacar alguns cobres nas efusivas noites etílicas, e também entre poetas e apaixonados, que lhe dedicavam pirosos sonetos de amor.

Escandalizados com a estroinice da filha, os progenitores tentaram levá-la à força para o Convento do Fundão, então sob a tutela da Ordem das Sagradas Virgens de Cristo. Mas era tarde de mais. Com a rebeldia da idade a ferver-lhe no sangue, fugiu de casa para não mais voltar. Dos 14 aos 17 anos viveu num quarto mal amanhado na Rua Marquês de Pombal, juntamente com ocupas anárquicos e o respectivo cão. Para se sustentar, saltitou do Galinha Gorda para o Minipreço, passando pelo café Sky, antro de velhos ferroviários e de bêbados imberbes. Ao entardecer, iniciava a demanda pelos trilhos vindimados de Baco, numa viagem que se estendia noite fora entre quelhas e ruelas degradadas. Numa madrugada de neve, com os passos entorpecidos pelo álcool, caiu desamparada na calçada da Rua da Cale. Ironia do destino, foi essa queda que lhe permitiu sair do poço onde se afundava dia após dia. Quiseram as estrelas que o brilhante estudante de informática, Marrusso, passasse por ali a caminho de casa. Ao vê-la estendida, levou-lhe de imediato aos lábios o cantil de bagaço velho que trazia sempre consigo para o aquecer durante o rigoroso Inverno fundanense. De imediato, os olhos de Catarina luziram como dois braseiros.

Do calor do bagaço ao calor da paixão foi um pequeno golo de ginja. Pode-se afirmar sem exagero que Marrusso lhe deu uma segunda vida. Catarina regenerou-se, reconciliou-se com o mundo e regressou à escola. A ideia era concluir os estudos secundários que abandonara e depois seguir para a Universidade. No entanto, a traição de Marrusso com Joana, uma abastada industrial de férteis ambientais, trocou-lhe os planos. Cega de raiva e ciúmes, assaltou um carro e, embrulhada na escuridão da noite, passou a ferro a sua rival, que ficou espalmada como um pacote de leite ao longo da Avenida da Liberdade.

Furioso com a morte da principal financiadora da sua causa, o General revolucionário Bojo Gonzalez exigiu a captura imediata do responsável pela morte de Joana. Certa de que era apenas uma questão de tempo até ser executada, Catarina fugiu para Évora. Foi aí que voltou à escola para concluir os estudos secundários e fazer o curso de arquitectura. Dessa sua estadia de quatro anos no Alentejo pouco se sabe. Os biógrafos inclinam-se para a hipótese de que terá levado uma vida regrada e com poucos relacionamentos fora do ambiente académico.

Terminados os estudos e com o apaziguamento da situação política, Catarina decidiu pôr termo ao seu exílio. Assim que soube do seu regresso, o Marechal MC Martinho fez questão de a receber pessoalmente no seu palácio, em Castelo Novo. Não é difícil perceber a atenção que dispensou à jovem. Na verdade, dera-lhe uma ajuda involuntária ao atropelar a fonte de rendimento de Bojo Gonzalez, com quem sustentava uma guerra sanguinária em virtude das diferenças ideológicas irreconciliáveis que perfilhavam e que queriam implantar na cidade. A empatia que se criou entre ambos, motivou sucessivos encontros em que debatiam sobretudo a reconstrução do Fundão, então uma amálgama de escombros e cinzas.

Em pouco tempo, Catarina tornou-se uma acérrima defensora das políticas ultraliberais e também uma grande admiradora da cultura norte-americana. A sua beleza e ingenuidade agradaram ao astuto MC Martinho, que a elevou a arquitecta oficial do regime. Quando as forças do General Bojo Gonzalez fossem derrotadas, Catarina Ginjas teria a responsabilidade de projectar o novo Fundão à imagem e semelhança dos apetites imperialistas e grandiosos do Marechal. Entusiasmada com o rumo que a sua vida levava, a jovem, então com 21 anos, empenhou-se durante 9 meses na criação de uma maqueta de 10 metros de comprimento por 2 de altura cheia de fontes e fontanários e edifícios ciclópicos. O que mais impressionava na sua obra era a Acrópole, monumento indescritível de mármore branco, que seria construído como homenagem delirante do regime ao grande helenista Vítor Punk. Com as suas colunas dóricas, jónicas e coríntias de 50 metros de altura, dominaria os ares da Cova da Beira; com a sua imponência balofa esmagaria tudo em redor.

A tormenta, no entanto, voltou a abater-se sobre Catarina quando soube da morte (mal explicada) de Emanuel Marrusso, na tarde de 4 de Setembro de 2009. Apesar de não o ver há vários anos, a notícia deixou-a destroçada, lançando-a de novo no caos alcóolico. Pelos documentos entretanto descobertos, sabe-se que o Marechal lhe escreveu várias vezes a pedir-lhe prudência e discrição na sua conduta, preocupado que estava em lançar um ataque furtivo contra as forças do General Bojo Gonzalez. De pouco valeu. Na madrugada de 12 de Setembro, a arquitecta terá entrado em casa completamente ébria e tropeçado na sua maquete. Colunatas, pórticos, cornijas, frisos e brasões desmoronaram-se sobre si, acabando esmagada por um sonho de gesso e contraplacado. Tinha 22 anos e ainda não deixara descendência.

Ainda hoje continua a causar estranheza a forma fria como MC Martinho reagiu à morte de Catarina. A sua atitude tem levado vários biógrafos a sustentar a hipótese de que o Marechal terá dado ordens para a executarem com o intuito de não comprometer o seu ataque militar, do qual ela era conhecedora. No entanto, a verdadeira razão continua por desvendar.

Foi a 13 de Setembro de 2009, debaixo de um ambiente crispado pelo luto e pelo ar belicoso que se respirava na cidade, que Catarina 'Ginjas' foi conduzida à sua última morada. Apesar de tudo e num derradeiro gesto de humanismo, MC Martinho ordenou que o seu corpo fosse enterrado no exacto local onde projectara a construção da Acrópole. Durante três dias, o Fundão chorou em conjunto a partida da mais promissora e brilhante arquitecta que alguma vez vira. Passado o nojo oficial, as bombas começaram a cair.

Se fosse viva, Catarina 'Ginjas' faria hoje 23 anos. O jornal O Naniko não se esquece da tua memória e dedica-te este texto na certeza de que o estás a ler na cidade ideal que um dia criaste. Muitos parabéns, Catarina 'Ginjas'.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Emanuel Marrusso (1986-2009)

Foi na Pedra d'Hera, miradouro natural alcandorado na Serra da Gardunha, que Emanuel Marrusso veio ao mundo. Logo nos primeiros instantes de vida, os olhos do recém-nascido vararam de lés a lés a Cova da Beira, com o Fundão a espraiar-se lá em baixo, na planície, e a trepadora Covilhã a resvalar ao longe na encosta íngreme da Estrela. Talvez tenha sido por esse acaso que o petiz adquiriu uma visão ampla e abrangente da realidade, o que lhe permitiu desde muito novo sobressair da mediocridade reinante na cidade beirã.

Ainda de cueiros, Marrusso demonstrou grande apetência e talento natural para a informática. Aos seis anos, os pais deram-lhe o primeiro PC, o qual desmontou vezes sem conta. A facilidade com que manipulava os componentes electrónicos, não passou despercebida aos progenitores que, durante as pausas do ano lectivo, o punham a trabalhar na Regisfundão. Na escola foi o melhor aluno do ensino básico, com notas muito superiores às dos seus colegas. Como prémio, o corpo docente ofereceu-lhe o "Prince of Persia", na altura considerado o jogo mais complexo alguma vez criado pelos cérebros de Silicon Valey. No entanto, o adolescente, então com 15 anos, deixou boquiabertos os seus mestres ao dar-lhe a volta em apenas duas horas. O feito navegou pelas sete partidas do mundo até chegar aos ouvidos do reitor da Universidade da Beira Interior, que lhe garantiu uma bolsa mensal de 1000€, valor impensável para a época.

Garboso, de cabelo louro e olhos azuis, Marrusso sempre causou profunda comoção na população feminina local. De trato fácil e dono de uma inteligência superior, distinguia-se com naturalidade da rudeza carroceira dos demais. Aos 17 anos teve uma paixão violenta pela futura arquitecta Catarina 'Ginjas'. No entanto, a relação acabou abruptamente quando o seu coração frágil foi trespassado pelos ferozes impulsos amorosos de Joana, uma abastada industrial de fertilizantes ambientais, numa traição que deu brado na região e que foi magistralmente relatada pelo impoluto cronista da época, Mário Bukowski Lopes Zurara. Este episódio amoroso acabaria por ter repercussões na sua vida profissional e académica, levando-o a suspender o projecto de desenvolvimento de uma inovadora linguagem de programação na Universidade. Descoroçoado, refugiou-se alguns meses na aristocrática Sintra da Beira, Alpedrinha, porto de abrigo de Casanovas e Romeus. Foi aí que sucumbiu à enigmática beleza da baronesa Inês Fernandes, com quem viria a casar-se aos 22 anos de idade na Igreja Matriz do Fundão.

Foi ela quem lhe deu o impulso necessário para voltar à investigação académica e ao seu projecto, o qual já era cobiçado pelas mais importantes empresas de informática do mundo. Quando estava quase concluído, suspendeu-o por razões ainda não totalmente esclarecidas pelos seus biógrafos. A versão que corre pelas bocas do comum cidadão, conta que Emanuel Marrusso fez um interregno para passar a lua-de-mel com a sua mulher em Lavacolhos. Decisão estranha e também trágica, porque foi aí, na praia fluvial da aldeia, que encontrou a morte. No dia 4 de Setembro de 2009, ao dar um mergulho no rio, calculou mal a sua profundidade (apesar de nadar nele frequentemente), partindo o pescoço contra uma rocha escondida no fundo do leito, segundo a informação oficial da GNR do Fundão. Tinha então 23 anos e ainda não deixara descendência. Num encadeamento bastante estranho de acontecimentos, dias depois o seu projecto desapareceu da Universidade da Beira Interior e a Inês Fernandes nunca mais foi vista na região, suspeitando-se que vive actualmente na sinagoga de Belmonte.

No dia do seu funeral, o Fundão uniu-se para lhe prestar um derradeiro e comovido tributo. Em sinal de respeito e afecto por uma das mais ilustres personalidades da região, foi-lhe atribuído o título póstumo de "Príncipe das Beiras" e mais ninguém voltou a jogar até aos dias de hoje o "Prince of Persia".

Hoje, Emanuel Marrusso faria 24 anos. O jornal O Naniko não se esquece da tua memória e dedica-te este texto na certeza de que estás a ler estas palavras algures na outra margem da vida. Muitos parabéns, Marrusso.

domingo, 11 de julho de 2010

Os tentáculos do amanhã

Os meus parabéns ao Paul pelo Mundial-2010 irrrepreensível que realizou. Sai da competição com a cotação em alta e com os grandes oceanários atrás de si. Será muito difícil o aquário Sea Life em Oberhausen, Alemanha, segurar os seus tentáculos oraculares face às propostas milionárias que provavelmente irão chover. Excelente visão, capacidade de ver o que se vai passar muito antes de todos os outros, fortíssimo poder de antecipação... Assim é Paul, o polvo para quem o amanhã antes de o ser já o era.

Com apenas mais seis meses de vida e ainda virgem, segundo informação da Octopus Daily Life, revista dedicada aos assuntos mundanos dos moluscos marinhos famosos, Paul irá provavelmente transferir-se para águas mais quentes, onde gozará uma merecida reforma e onde poderá dar largas ao seu amor tentacular, garantindo assim a continuidade da linhagem dos polvos-oráculos.

Saúde Paul, um abraço dos meus dois singelos braços e até sempre! És um campeão.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O paraíso num paddock perto de si

Tal como todas as outras crianças da minha idade, acreditava em monstros sinistros debaixo da cama a la Calvin&Hobbes. Anos depois saía para a rua com os meus amigos do bairro com a dose de lsd chamada Dragonball Z devidamente tomada e pensava que podia voar e impressionar as miúdas do ciclo com bolas de fogo azuis que se formavam nas minhas mãos. Depois, como todos os outros, passei a gostar de futebol e a frequentar bares aos fins-de-semana onde copos de cerveja iam e vinham como um boomerang sem fim enquanto se fazia o rescaldo da jornada de fio a pavio. O processo de idiotice estava por fim concluído. Há quem lhe prefira chamar crescimento, o que vem dar ao mesmo.

Desde então foram anos de escuridão e de vertigem hipnótica por entre as trevas subterrâneas do 4-4-2, do contra-ataque, do triângulo ofensivo, do remate do meio da rua e do fora-de-jogo que afinal não era. Foram 90 minutos uns atrás de outros que este domingo terminaram abruptamente com o som de saltos altos em doses maciças. Com o êxtase de um convertido, descobri que toda essa cegarrega chamada futebol não passa de uma imensa mariquice quando se toma consciência da existência neste mundo em que nós vivemos de um lugar chamado paddock, parte integrante de um desporto que até agora ignorara como um selvagem - as corridas de carros (sejam Fórmula 1, Fórmula 2, WTCC...).

O paddock existiu no princípio e existirá no fim dos tempos. É o local de onde Deus expulsou Adão e Eva. Ou seja, o paraíso. Mas com mais mulheres, melhor comida e desta vez com carros. E para variar na Terra. Bastou-me meia hora no paddock para que um gume de lucidez me rasgasse de cima a baixo, fazendo-me vomitar toda a farsa futebolística que me tem embriagado. No paddock há bandos de pernas à solta seguidas por objectivas ávidas do ângulo perfeito. Saem em grupos com indeumentárias religiosamente curtas e deixam pedaços do Belo atrás de si como Platão nunca descreveu. São a síntese última da criação. Neste patamar, a preferência por louras ou morenas é tão lógica como gostar mais do champoo de camomila do que o de alperce.

Não, meus amigos - não me voltam a enganar com a vossa farsa futebolística. Foram demasiados anos a ir no vosso engodo. No paddock, as transições do Luís Freitas Lobo são paneleirices que fazem corar de pudor o José Castelo Branco. No paddock, o Mourinho não passa do rapaz tímido do canto que come desajeitadamente o gelado que lhe escorre pelos braços. A partir deste dia em que me lêem, é de Brands Hatch em diante.

Agora percebo por que razão o Rui P. nunca me atende o telemóvel e por que se dedica há tantos anos ao desporto motorizado. Percebo que umas válvulas bem torneadas e oleadas possam ter o seu encanto, mas ninguém aguenta anos e anos a debitar sobre cavalos e motores a diesel. A resposta, meus amigos, está no paddock.

Portanto, só me resta ajoelhar e pedir perdão pelo meu comportamento: Aí, do paddock de onde me ledes, recebei as minhas desculpas terrenas, oh Rui P. Renego e abjuro todos relvados de futebol e todas as tácticas e transições que idolatrei durante anos fio. O Messi e o Maradona não passam de ídolos falsos e o futebol mais não é que um desporto maricas feito para pobres de espírito. Confesso que me tenho comportado como um homossexual sem remissão, bebendo cerveja e comendo amendoins com amigos em tascas com cheiro a fritos enquanto via o futebol e ofendia a mãe do árbitro. Aceitai o meu arrependimento e absolvei-me da minha conduta pecaminosa. Mostrai-me o caminho da virtude para o paddock, oh Rui P. Espero que um dia me abrais as portas do paddock e me deixeis sentar ao vosso lado direito. Abençoado sejais.

(Se preferires posso trabalhar à borla por tempo indeterminado e sem limite de horas desde que me deixes voltar a pisar o paddock.)







domingo, 27 de junho de 2010

Eis a questão



De outra perspectiva
À laia de Nuno Francisco: É o momento de todas as decisões. Deixou de haver o outro lado das coisas. Perante a fúria bestial que nos desafia, toda a metafísica se torna mais física que o granito beirão. É o regresso aos fundamentos, em que tudo se resume à questão essencial — tê-los ou não tê-los.

Foto: Shiva (Salvaterra de Magos); Texto: Shiva

domingo, 20 de junho de 2010

Da Cova da Beira

"Quem a olha, à noite, da Gardunha, percebe, pelo contraste da iluminação dos pólos urbanos e das comunidades afluentes, a enorme potencialidade da geografia humana que a Cova da Beira, em si mesma, oferece. Estamos face a uma metrópole à nossa dimensão que gravita à volta do concelho da Covilhã (onde avulta a Universidade da Beira Interior) e também dos concelhos do Fundão e Belmonte. Esta convergência define uma cidade média verdadeiramente singular no tecido urbano português. Como articular politicamente esta quase imposição geográfica, eis a questão. Não havendo instrumentos de poder interegional , nem vontade de debater a questão de um ponto de vista colectivo, resta que o tempo, esse escultor, acabe por impor a metrópole da Cova da Beira como espaço configurador dos seus habitantes. Quantos estudos invocam projectivamente essa realidade? Muitos. Qual tem sido o seu destino, até hoje? A gaveta."

Fernando Paulouro Neves, director do Jornal do Fundão


Foto de Riafoge

terça-feira, 15 de junho de 2010

Nanikos Populares 2010 - a aventura continua

Noite com aroma a sardinha a bailar pelas ruas inundadas de música. Nos bairros lisboetas, os manjericos embriagaram-se com a festa dos Nanikos FC, o clube que resiste à ameaça da cirrose. E ao tempo também. Prova disso são estas fotografias e as quadras dos Nanikos Populares. Manda a tradição que na noite de Santo Policarpo o naniko ofereça à nanika um garrafão de vinho com uma bonita quadra presa na asa. E assim foi.

Na noite de Santo António
Partiste-me o coração,
Fui para casa tocar harmónio
E beber pelo garrafão.


Na noite de Santo António
Comprei um manjerico,
Gastei o dinheiro todo
Mas deixei feliz o meu Naniko.



Oh meu rico Santo António
És um Santo casamenteiro,
Dá uma mulher ao Marquito
Para que não vire paneleiro.


Oh meu rico Santo António
Dá amor ao meu Xico,
Sei que ele é malvado
Mas é o meu Naniko.


Na noite de Santo António
Dancei com uma checa,
Ofereci-lhe um manjerico
Porque não quis dar uma queca.


Oh meu rico Santo António
Dá beber ao meu André,
Sei que já está com os copos
Mas ainda se aguenta de pé.


Na noite de Santo António
Danço e bebo até de madrugada,
Espero encontrar os meus amigos
E também a minha amada.


Santo António
Santo Antoninho,
Dá-me inspiração
Para oferecer ao meu Ruizinho.


Oh meu rico Santo António
Dá-me pão com sardinha,
E se não for pedir muito
Deixa-me dançar com a Paulinha.

sábado, 12 de junho de 2010

Descarrilando por aí

Lisboa é uma mulher que se vai descobrindo a cada novo encontro. Descarrilo da geometria rígida da rotina e viajo pelo seu regaço. Desço a calçada íngreme da Bica, onde o fim de tarde se vai vestindo para a noite. Dançam nuvens vagarosas de fumo dos fogareiros à entrada dos cafés. Homens de farto bigode, calções e t-shirt cravados de nódoas de gordura atiçam o carvão incandescente. A sardinha já pinga no pão, rescendendo ruas, becos e alfurjas com o seu cheiro a mês de Junho.

Lisboa é um rio cheio de meandros que desaguam em recantos pitorescos, poiais e pequenos jardins. Ao entardecer, as cores harmonizam-se num quadro que embala os sentidos. Mesmo as estrelas que desceram do céu de água cinzenta não ferem os olhos com o seu brilho cru. Vogam nas fitas azuis, vermelhas, verdes e amarelas, dando um sorriso festivo à Rua dos Cordoeiros. Além ondula uma bandeira nacional pendurada na varanda e acima um vaso de manjerico espreita à janela. No largo Santo Antoninho afinam-se graves e agudos da aparelhagem, que passa canções portuguesas debaixo de uma árvore de copa elegante. Por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre da faculdade, não lhe sei dizer o nome. Sigo adiante. Os primeiros comensais já estão sentados nas mesas brancas de plástico que ladeiam a rua. Saem do lume as sardinhas e as febras fumegantes acompanhadas pelo tinto da casa, servido em jarros de barro. Quando o xaile da noite cobrir em definitivo o dia, esta e todas as outras ruas serão um mar transbordante de festa que alastrará por todos os bairros devotos a Santo António. Não sei bem porquê, sinto um travo forte a nostalgia de um passado difuso. As memórias são peixes que vêm à superfície para logo mergulharem no leito do tempo.

Lisboa é uma boneca russa que se desvela aos meus passos errantes. Descubro uma nova rua que flutua por cima do frenesim da Calçada do Combro ao lado da Igreja de Santa Catarina. Com o espanto próprio dos iniciados, passo o portão verde que está aberto e avanço. Há um arco branco logo à entrada que lhe dá um toque árabe. Mais à frente descubro um campo de futebol com piso de tartan. Mas o que domina o panorama é a elegante chaminé laranja nas traseiras da Rua do Século, outrora Formosa. A espreitar do lado esquerdo está o vermelho escuro da Escola Passos Manuel. Saio e volto a mergulhar no pulsar festivo da cidade.

Cai a noite e sinto o desamparo de quem já não é conduzido por carris. A certeza totalitária do ferro deu lugar ao acaso que tropeça, democraticamente, por uma Lisboa irregular. Antes assim. São cada vez mais efémeros os momentos em que tudo volta a ser real. As luzes eléctricas eclipsaram as estrelas que brilham lá em cima cada vez mais solitárias. O Homem hipnotizado durante horas a fio pelo fogo de uma fogueira já não existe. E o grito milenar de espanto perante o incompreensível espectáculo de uma existência feita de carne e osso já mal se ouve. Hoje gostava de o ter ido escutar a Foz Côa, onde tudo começou. Mas os carris de ferro ditaram outra coisa.

sábado, 10 de abril de 2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

Jam Session 2010

Foi assim o festival de snowboard na Serra da Estrela no qual estive presente com dois artistas da zona de Lisboa. Pelo profissionalismo, percebe-se que o primeiro vídeo não é da minha lavra, enquanto que o amadorismo do segundo revela que o autor só pode ser a minha pessoa. Marquito, preferiste trocar um dia na Serra da Estrela cheio de miúdas da Red Bull por uma noite na Moagem com o Vita?

Para a próxima não te esqueças da palavra neve. Já agora, e numa de achincalhamento primário e gratuito, deixo aqui tua frase para que fique para todo o sempre gravada na blogosfera e na memória de todos os que visitarem esta tosca casa:

"Cada vez que vou à Serra, passo um frio de rachar,
por isso nada melhor que o Spark para me ajudar,
ao passear pela Spark Jam Session já equipado, do Spark vou falar,
para quem estiver com frio ou desconfortável e não souber como se equipar."

Neve? Onde estás neve? Pelo estilo burilado da quadra, pelas rimas emparelhadas e pela métrica decassilábica capaz de envergonhar um Luís de Camões ou um Bocage, vê-se que pensaste seriamente no assunto, mas onde raio metestete a palavra neve?

Neve, Marquito! Neve, onde está a neve? Bate leve e levemente como quem chama pelo Marquito...




quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

E tudo o vento levou!!!

Um anda para Barcelona, outro para Madrid, e o homem das Budweiser pelos States!!

Assim sendo, já se fala em visitas a tais terras encantadas!!!
Eu comprei viagem para Madrid de 4 a 9 de Fevereiro por 35 euros..Por isso quem tiver em maré, que se junte!!
Em conversa com o Ukrania chegamos a acordo que em Abril vamos orientar a viagem a Barcelona, por isso mexam cordelinhos e euros para a festa..
Já em relação aos States ainda aguardamos a remessa do emigrante para voos mais distantes!!
Nai nai e começar a orientar as viagens!!


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

De jipe pelo Reino de Marrocos...

Cansado do deserto da margem sul do Tejo, aventurei-me por outras paragens igualmente inóspitas mas com menos marquises. O resultado é o que se segue...